Em 1942, enquanto a Segunda Guerra transformava refugiados em estatísticas e fronteiras em muros, centenas de crianças polonesas vagavam entre decisões burocráticas e a indiferença internacional.
Eram órfãs, sobreviventes de deportações soviéticas, libertadas após anos em campos de trabalho e empurradas por uma rota improvável que passava pelo Irã até chegar à Índia Britânica.
A Índia, naquele momento, não era um país soberano, mas uma colônia.
Portos, navios e decisões passavam pelo crivo do Império Britânico, que lidava com refugiados como quem administra excesso de carga. Negociações se arrastavam. O tempo, não.
Foi então que a história saiu do eixo previsível.
No oeste da Índia, no pequeno Estado principesco de Nawanagar, o Marajá Jam Sahib Digvijaysinhji foi informado de que centenas de crianças polonesas precisavam de abrigo. Não se tratava de um gesto estratégico, nem de uma obrigação legal. Era apenas uma pergunta simples demais para a guerra: alguém iria acolhê-las?
O Marajá disse que sim.
Autorizou a entrada das crianças em seu território e destinou sua residência de verão, em Balachadi, para abrigá-las.
Não criou um campo improvisado, mas uma comunidade. Houve escola, médicos, alimentação regular e professores poloneses. Houve também algo raro em tempos de guerra: normalidade.
As crianças aprenderam novamente a brincar, estudar e celebrar datas que pareciam perdidas. Mantiveram a língua, a cultura e a memória de um país que talvez nunca mais vissem.
O próprio marajá acompanhava o cotidiano, financiava o abrigo e fazia questão de ser lembrado não como autoridade, mas como alguém presente.
Balachadi funcionou entre 1942 e o fim da guerra. Os números variam — algo entre 600 e 800 crianças —, mas o essencial é indiscutível: elas sobreviveram porque alguém se recusou a tratá-las como um problema diplomático.
Depois da guerra, essas crianças seguiram para outros países, reconstruíram a vida e levaram a história consigo. Na Polônia, o Marajá passou a ser conhecido como o “Bom Marajá”, homenageado com praças, escolas e memória oficial.
O monumento, no entanto, não está no bronze.
Está em cada vida que atravessou o século porque, em meio à guerra, um homem decidiu que compaixão não precisava de autorização.

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