O acordo entre Mercosul e União Europeia finalmente saiu do papel.
Sim, aquele mesmo que atravessou governos, modismos ideológicos, crises ambientais, surtos protecionistas e toneladas de ceticismo diplomático.
Convém registrar, antes que o debate seja capturado por torcidas organizadas, um fato objetivo: trata-se de uma vitória pessoal e política do presidente Lula, o governante que mais insistiu (e por mais tempo) na ideia de que esse pacto era não apenas possível, mas necessário.
Lula defendeu o acordo quando ele era tratado como inevitável, sustentou-o quando passou a ser visto como inconveniente e o recolocou no centro da agenda quando muitos já o davam como enterrado.
Política externa não é improviso; é persistência. E nisso o presidente brasileiro mostrou método, memória e leitura de mundo.
O acordo, em linhas gerais, cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, conectando dois blocos que somam quase 800 milhões de pessoas.
Para o Mercosul, amplia-se o acesso a mercados europeus para produtos agrícolas e commodities. Para a União Europeia, consolida-se a entrada em mercados sul-americanos para bens industrializados, serviços e investimentos.
Não há altruísmo: há interesses bem calculados dos dois lados.
Mas é preciso dizer o óbvio — algo que anda em falta no debate público.
A assinatura não significa vigência imediata.
Agora começa a fase menos fotogênica e mais decisiva: revisão jurídica, traduções oficiais e, sobretudo, a ratificação parlamentar.
Na Europa, o acordo enfrentará resistências protecionistas embaladas em discurso ambiental.
No Mercosul, passará por congressos que nem sempre primam pela visão estratégica de longo prazo.
Há ainda um elemento externo que ajuda a explicar a retomada do acordo: Donald Trump.
Com sua agenda declaradamente protecionista, hostil ao multilateralismo e avessa a pactos amplos, Trump tornou-se o grande antagonista involuntário desse processo.
O acordo Mercosul–União Europeia é, também, uma resposta geopolítica à lógica do “cada um por si” que ele representa. Trump terá de engolir: enquanto ele ergue muros comerciais, outros constroem pontes, ainda que imperfeitas.
Os protocolos adicionais sobre sustentabilidade seguem como o principal ponto de atrito.
Existe preocupação ambiental legítima? Sim.
Existe também o velho protecionismo europeu com nova embalagem verde? Evidentemente.
Cabe ao Brasil e aos parceiros do Mercosul negociar com firmeza, sem submissão nem bravatas.
O acordo não é panaceia. Não industrializa o Brasil por decreto nem resolve as assimetrias históricas do bloco sul-americano.
Mas recoloca o país no tabuleiro internacional com previsibilidade, diálogo e protagonismo, algo que havia sido abandonado.
No mundo real, acordos não são perfeitos. São possíveis. E este só voltou a ser possível porque alguém decidiu insistir — mesmo quando o vento soprava contra.

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