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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guilherme Arantes por Guilherme Arantes

Para quem se interessar por saber um detalhe sobre a minha carreira tão peculiar, aqui vai um sucinto questionário, em forma de "charada"...

Só para distrair... só de curtição !

Muitos me perguntam uma série de porquês.

1. Por que eu fiquei de fora de todos os line-ups de festivais e assemelhados, como os históricos Hollywood Rock, Rock in Rio, etc, e posteriormente também prossegui fora dos festivais modernos...

2. Por que só eu fiquei de fora dos "Acústicos MTV", quando todos os nomes dos anos 80 e 90 participaram, alguns várias vezes seguidas, e me tornei uma espécie de "leproso do pop" brasileiro, mesmo tendo sido historicamente pedra fundamental por várias vezes, como Meu Mundo e Nada Mais inaugurando o Pop Brasil em 76, e depois com Perdidos na Selva, Deixa Chover, inaugurando os Anos 80 ? Porque ? 

3.Por que eu fui cirurgica e sistematicamente excluido, 100% cancelado das mídias escritas especializadas no Rock e no Pop brasileiro, tais como Revista Bizz e outras assemelhadas. mesmo tendo sido praticamente o pai de todo o movimento ?

4. Como é que eu sobreviví a essas exclusões vergonhosas, e hoje ainda estou aqui, de pé e vivinho da silva, prestes a lançar um álbum histórico e uma grande turnê de cinquentenário de carreira, e tenho moral absoluta para contar essa história ?

As respostas, nos próximos capítulos.

Este mundo é uma piada.

Mais engraçado ainda é poder "dar nomes aos bois" ...

Só não sei se vale a pena guardar rancores...

Penso que não...

Mas "saborear" sim . E dar muita risada, porque é um mundo caricato.

Vou começar a responder nas linhas abaixo.

O mundo da musica é feito em camadas que se sucedem .

E não são apenas as modas , em ondas...

Ondas de linguagem, de costumes e roupagens, timbres, calças e cabelos...

As vezes são também os suportes tecnológicos que se renovam, e muitos nomes vão ficando para trás.

Nesse aspecto, fui sobrevivendo quase sem traumas.

Só nos anos 90, com a chegada da replicação digital ( o desastroso CD, não pelo veículo em si, mas pelo mau uso que fizeram com o imediatismo) as gravadoras inventaram, ou aproveitaram melhor dando mais ênfase a artistas para a "escala de milhão" , e surgiram os filões adequados (Axé, Pagode, e o Neo-Sertanejo).

Os gêneros musicais são sempre válidos, vejam bem, o que criticamos aqui é o "hype" artificial . 

O fato é que a nossa geração sentiu o baque com as concorrências violentas que tivemos que nos confrontar. Uma delas é a ascensão inexorável e plenamente justificada do Agro. Com o Sertanejo ninguém pode. 

Outra foi a ascensão monumental da Bahia como polo turístico e comportamental, a explosão bela e  maravilhosa do Axé, com artistas muito mais eficientes.

Outra ainda foi a explosão espetacular de uma Jovem Guarda preta no país, tomando conta dos programas de auditório com os sucessos inequívocos do Pagode

E ainda o surgimento do Rap, tendo à frente, entre outros, os Racionais de Mano Brown, de quem me tornei fã ardoroso de primeira hora!

Núcleos de híbridos dessas tendências ainda produziram vertentes geniais de Charlie Brown Jr, o Rappa, misturando rap com reggae, punk com samba, o Planet Hemp, o Brasil ficava muito múltiplo e porque não dizer - legítimo.

Quem seria eu para criticar o "novo"?

Veio ainda a fulminante Cena Pop de BH , com bandas excelentes como o Skank, o Jota Quest, o Pato Fu, Wilson Sideral, e o rádio nos anos 90 virou uma festa de uma nova geração. 

A nossa geração 70/80 sentiu o baque.

Eu, que não era nenhum blockbuster de vendas, perdi o pé, porque não tinha uma operação de marketing que me abarcasse dentro.

Me ví avulso.

Mas existiram outros fatores muito piores, já a partir da decada de 80.

Surgiram nichos importantes de mídia, e eu estava despreparado, principalmente frente à velocidade dessa transformação.

Eu vinha da televisão, dos programas de auditório, uma espécie de pós-Jovem Guarda.

As trilhas de novelas, que haviam me projetado, iam se tornando mais e mais competitivas nas gravadoras, e a ferocidade nos bastidores ia se recrudescendo, com novos "hitmakers" entrando no páreo, cada dia mais profissionalizado e disputado.

Muitos talentosos e espertos também aprenderam as minhas velhas fórmulas das baladas de novela. virou um gênero vulgar, o que era para mim uma obra de arte. 

Não bastava eu ter uma musica "Amanhã" no Dancin' Days

Tornou-se a "Era dos HitMakers", com hits fabricados em escala industrial, e eu era muito mais do que isso. Eu não vendia disco, era um mero artesão. Simples assim. 

A chegada do Pop Rock aos auditórios, trazendo um Brasil Jovem para a popularidade nacional, acendeu o interesse das "Majors" , e um nicho jovem logo se instalou, com o Circo Voador, o Asdrubal, e o fenomeno das "danceterias", os "trends" do New Wave, New Romantic, Pós-Punk, New Bossa, Brit Pop, Grunge, etc, etc ... uma floresta de cogumelos pipocando micro-modas.

A seguir, as Editoras passaram a dedicar partes de suas redações para o publico jovem.

Eu ainda performava bem no tempo da Revista Pop do Okky de Souza, Antonio Carlos Miguel, Ana Maria Bahiana, Ezequiel, Julio Barroso, e muitos outros amigos geracionais.

Nelson Motta entre eles.

Eu estava na Warner do Midani, com bons assessores de imprensa e um foco especial no cast jovem, com Baby, Pepeu, A Cor do Som, Dafé, Oswaldo Montenegro, As Frenéticas, Gang 90, Marina, Lulu Santos, Ira.

Mais tarde chegariam os Titãs, o Ultraje, em plenas águas turbulentas dos anos 80.

No meio da década, mais precisamente no final de 84, eu iria para a CBS do Tomás Muñoz, Condé, Maynard, assinava contrato com uma espécie de Real Madrid, uma Ferrari campeã de vendas, com o RPM no auge, Djavan, Simone, Fabio Jr, Rosana, Ritchie, Radio Taxi, Metrô, Angélica, Turma do Balão Mágico, Dominó, Leo Jaime, e muitos outros frequentadores do Globo de Ouro.

Em um apogeu fonográfico internacional do We Are the World, Thriller, imaginem que onda!

A CBS tinha um marketing bem agressivo, mas não se especializou nem em MTV, nos canais e programas de clips que viraram moda.

E nem em Revista Bizz e outras publicaçoes especializadas desse periodo.

Eram novos canais preferências de um movimento geracional, ligado a outros grupos fonográficos.

Eu estava muito bem, com sucessos e boas vendas todo ano, mas nós não estávamos muito preocupados com a mutação do mercado, especialmente do Show Business, que começava uma escalada de "substituição da indústria fonográfica" por uma nova indústria, a do entretenimento do espetáculo. O disco, que era até então o foco principal, começava a virar um suporte secundário.

Após o Rock in Rio, que inaugurou uma nova escala de produção de shows no Brasil, ainda se instalou uma "indústria de imagem" como nunca havia existido antes.

O Video-Clip como produto, não mais como mero suporte de divulgação.

Uma nova linguagem, filmada em película, por cineastas, e voltada para um canal específico extremamente estratificado.

E Excludente.

Eu claramente não "era da turma", já era um dinossauro.

Eu sabia disso tudo, era informado, mas iludido,  não acreditava muito, me achando o "rei da cocada-preta", deitado nos louros de Gugú, Raul Gil, Cassino do Chacrinha, Bolinha, Globo de Ouro, Fantástico, Xou da Xuxa, com os velhos videoclips em BetaCam, brincando com "chroma-keys" primários, ballets cafonas, fumaças de gelo seco, muitos panos esvoaçantes e taças de champagne.

Vamos ser sinceros: mergulhado numa estética careta, eu estava ficando pra trás, com os meus enormes posters da Amiga e da Contigo nas paredes dos salões de beleza.

Hoje eu lembro com carinho, mas dando muita risada.

A minha música era boa, eu sabia, e sabia que iria durar, mas aquele momento de virar a mesa estéticamente, nos vídeos, nas capas, enfim, na imagem, já há muito havia passado do ponto.

Eu já era.

Em 92 eu ainda migraria para a EMI Odeon, para um cast que reunia Paralamas, Legião Urbana, Marisa Monte, Kiko Zambianchi, Marina Lima, só craques com discos e imagem impecáveis, e pude pela primeira vez me auto-produzir (assumir o comando fonográfico ).

O LP "Crescente", uma obra- prima, no Estudio Mosh, com mastering em NY, no MasterDisk do Bernie Grundman, e fiz um único clip de arte, com Flavio Colker, da musica Taça de Veneno, um clip lindissimo em linguagem de cult movie. 

Bola dentro com a equipe da EMI Odeon, que acreditou no meu taco, porém 93 seria um ano de desmanche dessa industria fonográfica "mais nobre", e um mergulho generalizado nos caminhos milionários do CD e do DVD. 

Cabeças estavam rolando nas gravadoras "majors", que faturavam como nunca com o digital, era o frenesi de um Titanic afundando.

Eu havia chegado tarde. (Ou quase)...

Mal consegui tangenciar aquela geração que consolidava prestigio com sucesso.

Dali para a frente, eu viví o meu "jubilamento" das gravadoras "majors".

Não tive conflitos, não processei ninguém, não virei persona-non-grata.

Simplesmente fui me retirando, com minhas auto-produções em Adats, e já nos anos 2000 migrei para Protools, Logic Audio, montei meu estudiozinho, meu selo independente e passei a um status de "cult".

Nanico, mas respeitado.

Penso que foi um processo normal. 

33 anos depois, a idade de Cristo, eu não vejo nada de mais no que aconteceu, ou deixou de acontecer comigo. 

Está tudo bem, tem lugar pra todo mundo, tem lugar pra todos os nossos acertos e...  para os nossos erros, um lugar ainda mais especial !

Conseguimos compreender, e aceitar, que a gente falha (muito) também nesta vida, por mais que o sucesso seja tão gratificantemente enganador.


Texto de:

Guilherme Arantes


A postagem original pode ser conferida na página de facebook do artista

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Esperança e resistência política em “New Year's Day” do U2

Composição: The Edge / Larry Mullen Jr. / Adam Clayton / Bono.

New Year's Day”, do U2, vai além de uma simples canção sobre renovação.

A música faz referência direta ao movimento Solidariedade na Polônia, liderado por Lech Walesa, trazendo um forte significado político.

A separação de Walesa e sua esposa Danuta, evocada por Bono, aparece nos versos “I want to be with you, be with you night and day / Nothing changes on New Year's Day” ( Quero estar com você, estar com você noite e dia / Nada muda no Dia de Ano Novo ), expressando tanto o desejo de união quanto a frustração diante da estagnação política e social.

O cenário descrito como “world in white” ( mundo em branco ) e a repetição de “All is quiet on New Year's Day” ( Tudo está quieto no Dia de Ano Novo ) sugerem um momento de pausa e reflexão, mas também de esperança silenciosa em meio à opressão, reforçada pelo inverno rigoroso mostrado no videoclipe e pelo “blood red sky” ( céu vermelho sangue ) da letra, que remete à violência e tensão política da época.

Apesar do tom de desolação, a música traz uma mensagem de esperança e resistência, especialmente nos versos “Say it's true, it's true / And we can break through / Though torn in two / We can be one” ( Diga que é verdade, é verdade / E nós podemos superar / Mesmo divididos em dois / Podemos ser um ).

Bono sugere que, apesar das divisões, é possível superar as dificuldades e buscar união, refletindo o espírito do Solidariedade.

Ao mencionar “gold is the reason for the wars we wage” ( o ouro é o motivo das guerras que travamos ), a música amplia seu alcance, conectando a luta polonesa a conflitos universais motivados por interesses materiais.

Assim, “New Year's Day” se destaca como um hino à esperança, renovação e persistência diante dos desafios, marcando a transição do U2 para temas sociais e políticos.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Higher Ground



Higher Ground” foi escrito por Stevie Wonder sobre ter uma segunda chance e aproveitar ao máximo.

O que é mais surpreendente nessa música é que Stevie a gravou três meses antes de quase ser morto a caminho de um concerto beneficente. Stevie ficou em coma por três meses.

No verso “I'm so darn glad he let me try it again / 'Cause my last time on earth I lived a whole world of sin” ( Estou tão feliz que ele me deixou tentar de novo / Porque da última vez na Terra vivi um mundo inteiro de pecado ), Wonder expressa a crença de que a vida oferece oportunidades para aprender e evoluir espiritualmente.

Esse significado ganha ainda mais profundidade ao considerar que, pouco depois do lançamento da música, Stevie Wonder sofreu um grave acidente de carro e entrou em coma.

Durante sua recuperação, a canção foi usada como estímulo, simbolizando literalmente uma nova chance de viver e crescer.

A letra também alterna entre críticas sociais e mensagens de perseverança.

Em “Powers keep on lyin' / While your people keep on dyin'” ( Os poderosos continuam mentindo / Enquanto seu povo continua morrendo ), Wonder denuncia injustiças e a persistência de problemas sociais.

Apesar disso, ele contrapõe essas dificuldades com esperança, especialmente no refrão: “Gonna keep on tryin' / Till I reach the highest ground” ( Vou continuar tentando / Até alcançar o ponto mais alto ).

Assim, a música se transforma em um hino de superação, fé e busca constante por crescimento, tanto individual quanto coletivo, com a espiritualidade servindo como fonte de força.

#steviewonder #music #world #groove #r&b

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 20 de dezembro de 2025

O Cazuza, a AIDS e o meu Tio Lorenzo

Dizia o poeta Agenor, universalmente conhecido como Cazuza, que “o tempo não para”.

Aos meus 64 anos, a minha saúde paga o preço do verbo — não parar. O meu agora significa mais uma noite na emergência hospitalar, aqui em Taubaté.

A Globoplay lançou recentemente a série Cazuza – Além da Música, magnífica coleção de informações e depoimentos sobre a vida, a passagem e a obra deixada pelo eterno filho de Lucinha e João Araújo.

Assim como ele, estudei no Colégio Santo Inácio; 5 anos mais novo, certamente nos cruzamos em algum momento por aqueles corredores imensos, sob o sino de bronze do jardim: “Eu sou um cara cansado de correr na direção oposta, sem pódio de chegada ou beijo de namorada”.

A série, em 4 capítulos, vai além da caricatura do sex, drugs & rock and roll. Mostra uma juventude da Zona Sul carioca dos anos 1980 que escolhia novas formas de viver e amar, rompendo conceitos herdados do antidemocrático 1964.

Cazuza surge como elemento transformador desde a largada. Do Barão Vermelho para a eternidade. Com ele, o dia nasceu feliz e a Beth balançou. 

No Rock in Rio de 1985, a maturidade chegou diante da multidão que aguardava a posse de um presidente civil, após mais de 20 anos de um verde sem esperança.

Na mesma década, apaixonei-me, fui para a Espanha, casei. Em Madrid, capital cultural da Europa, vivi 5 anos e meio mágicos trabalhando numa multinacional, base profissional para toda uma vida.

Para o Cazuza, a AIDS que o acompanhava há três anos causou a sua morte em 7 de julho de 1990, aos 32 anos. No mesmo dia, em Roma, acontecia o primeiro concerto dos Três Tenores. Morreu a carne, eternizou-se o poeta. A notícia correu entre os brasileiros em Madrid. Foi difícil dormir. Voltei aos shows do Circo Voador: “Todo dia a insônia me convence de que o céu faz tudo ficar infinito”. Maldita AIDS.

Regressei ao Brasil no final de 1993, sem vontade - por amor. “E por você eu largo tudo”.

Em 26 de dezembro o meu Tio Lorenzo foi diagnosticado com AIDS. De 95 quilos, restavam 55. Tornei-me o seu único apoio no Rio. Essa guerra era minha.

Ao vasculhar o apartamento – como de uma cena de algum filme de suspense se tratasse - um choque: cartas de um namorado, fotos de homens, camisinhas gays. Aos 32 anos descobri que o meu Tio, de 54, era homossexual.

Dediquei-lhe um ano inteiro; vi vagão do metrô esvaziar-se, por preconceito – estava em pele e osso, uma caveira. 

Faleceu a 4 de dezembro de 1994 nos meus braços. Durante meses temi ter-me contaminado pois tive contato com o seu sangue. Deus não quis. Morreu sem revelar a sua condição sexual. Nunca me importou. Eu o amava. Se havia em mim qualquer traço de homofobia, deixou de existir: “É que eu preciso dizer que eu te amo”.

Esta noite, já madrugada do dia 20 de dezembro, o conta-gotas do soro acompanha minhas palavras. Sinto saudades do amor do meu tio Lorenzo.

Cazuza segue atual: “A tua piscina tá cheia de ratos”. Sempre foi assim: “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”. Serve para o Congresso Nacional, serve para a ALERJ.

Estou cansado do pedágio do meu corpo, às vezes falta gasolina. Hoje, o portador de HIV tem perspectivas. A ciência dá vida.

Finalizando: “Eu não tenho datas pra comemorar”.

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Sinéad O'Connor, o preço pela verdade

Diante de 20 mil vaias que a expulsavam do palco, um homem se aproximou e sussurrou em seu ouvido: "Não deixe que esses desgraçados te abalem."

Era 16 de outubro de 1992, no Madison Square Garden.

Sinéad O'Connor, aos 25 anos, já era uma voz inconfundível, uma superestrela global eternizada pela melancólica "Nothing Compares 2 U". Mas naquela noite, ela não pisaria num palco para ser ovacionada por fãs. Ela caminhava direto para uma emboscada.

Duas semanas antes, ao vivo no Saturday Night Live, Sinéad havia cometido um ato impensável. Cantou "War", de Bob Marley, mas com letras alteradas para denunciar o abuso infantil. Em um gesto desafiador, olhando fixamente para a câmera, rasgou uma foto do Papa João Paulo II, proclamando: "Lutem contra o verdadeiro inimigo."

A retaliação foi imediata e avassaladora. Ameaças de morte, boicotes nas rádios, condenação da Igreja Católica. Até colegas artistas se afastaram. Frank Sinatra, em sua fúria, disse que queria "chutar a bunda dela". Joe Pesci, apresentador do SNL na semana seguinte, declarou que se estivesse lá, teria "dado-lhe uma tremenda bofetada".

Mas Sinéad não se retratou. Não cedeu. Ela tentou explicar: seu protesto era contra o abuso infantil sistêmico dentro da Igreja Católica, um acobertamento que chegava aos mais altos escalões.

Em 1992, porém, a verdade era incômoda. A ideia de que a Igreja protegia padres pedófilos era descartada como teoria da conspiração, fanatismo anticatólico, devaneios de uma jovem "perturbada".

Assim, ao pisar no Madison Square Garden para o concerto de 30 anos de Bob Dylan, ela sabia o que a esperava. Um palco grandioso, repleto de lendas como Neil Young, Eddie Vedder, Eric Clapton, George Harrison. E, em meio a eles, Sinéad – a mulher que a América parecia querer aniquilar.

Kris Kristofferson, uma lenda em si – Rhodes Scholar, capitão do Exército transformado em compositor, autor de "Me and Bobby McGee" – foi escolhido para apresentá-la. Ele havia vivido o suficiente para reconhecer a verdadeira coragem.

Nos bastidores, enquanto Sinéad aguardava, a tensão era sufocante. Ela ouvia o rugido da multidão de 20 mil pessoas, todas já convencidas de que ela era a vilã. Kris subiu ao palco, fez uma introdução simples, digna, e pronunciou seu nome. As vaias explodiram instantaneamente.

Não era uma reação dispersa. Era uma MURALHA de som – um clamor unificado, carregado de ódio, que parecia fazer tremer as estruturas do Madison Square Garden. Vaias, gritos, insultos. Pessoas de pé, gesticulando obscenidades. Não era apenas a rejeição de uma performance; era a turba sedenta por sangue.

Sinéad avançou pelo palco – uma figura miúda, de cabeça raspada, engolida por roupas largas. O barulho se intensificou. O desprezo era quase tangível, uma onda que parecia querer empurrá-la de volta. Ela deveria cantar "I Believe in You", de Dylan, uma canção sobre fé diante da rejeição. Mas não conseguiu. O ódio era ensurdecedor, avassalador. Permaneceu ali, paralisada, enquanto as vaias prosseguiam.

Então, em um ato extraordinário, em vez da música planejada, ela começou a berrar "War", de Bob Marley – a mesma canção do SNL, as mesmas palavras que haviam incendiado a controvérsia:
"Até que a filosofia que mantém uma raça superior e outra inferior seja finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada... Até que a cor da pele de um homem não tenha mais significado do que a cor de seus olhos... Até esse dia, o sonho de uma paz duradoura permanecerá apenas uma ilusão fugaz."

Não era mais uma canção. Era um contra-ataque. Sua voz, crua, desafiadora, raivosa, gritava: "Se vão me destruir, cairei de pé!"

As vaias redobraram. Objetos eram atirados. A hostilidade era tamanha que seguranças se aproximaram do palco. Sinéad não conseguiu terminar. A muralha de ódio era impenetrável. Ela interrompeu o verso e deixou o palco.

Nos bastidores, Kris Kristofferson a esperava. Ela tremia – adrenalina, raiva, humilhação, tudo em colisão. Lágrimas escorriam pelo rosto, parecia prestes a desmoronar. Kris a abraçou, puxou-a para perto e sussurrou em seu ouvido: "Não deixe que esses desgraçados te abalem."

Naquele instante – cercada por um mundo que queria apagá-la, por uma indústria que lhe virava as costas, por uma cultura que a condenava – uma única pessoa a enxergou com clareza. Não como uma estratégia publicitária, nem como uma celebridade problemática. Mas como uma jovem mulher desvendando a verdade, a um custo pessoal colossal.

Mais tarde, Kris dedicou-lhe uma canção, "Sister Sinead". As letras capturavam a essência do que ele testemunhou: uma pessoa corajosa demais para ser quebrada, honesta demais para ser domada, verdadeira demais para se apagar.

A canção abordava a pergunta óbvia que todos faziam: "Ela era louca?" Talvez. Mas o mesmo se dizia de figuras históricas que enxergaram o que os outros não viam, que proferiram verdades que ninguém estava pronto para ouvir. Picasso foi taxado de louco. Os santos foram chamados de loucos. Todo profeta, todo porta-voz da verdade, toda pessoa que se recusou ao silêncio quando calar era mais cômodo – todos foram, primeiramente, chamados de loucos.

E então, anos depois, o mundo acordou.

Em 2002 – uma década após Sinéad rasgar aquela foto – o Boston Globe publicou uma investigação que viraria tudo de cabeça para baixo. Revelaram o que Sinéad tentara dizer: a Igreja Católica acobertara sistematicamente o abuso sexual infantil por décadas. Padres molestavam crianças, bispos protegiam padres. Não era teoria da conspiração. Era um fato documentado.

As revelações se espalharam globalmente. A Irlanda, terra natal de Sinéad, foi particularmente devastada pelas descobertas. Milhares de vítimas surgiram. Os acobertamentos eram profundos, institucionais, exatamente o que Sinéad tentara expor.

Ela estava certa desde o início.

Mas, a essa altura, sua carreira estava em ruínas. O público, enfim, admitiu a verdade, mas um pedido de desculpas real nunca veio. O palco do Madison Square Garden nunca testemunharia sua vindicação. A indústria que a marginalizou jamais ofereceu uma chance de reparação.

Sinéad O'Connor passou o resto da vida lutando contra problemas de saúde mental, buscando ser ouvida e tentando criar música numa indústria que a rotulou como "difícil" e "instável". Em 2018, converteu-se ao Islã, tornando-se Shuhada' Sadaqat. Manteve-se fiel à verdade, recusando-se a ser moldada pelas expectativas alheias.

Em julho de 2023, Sinéad O'Connor faleceu aos 56 anos. As homenagens choveram – muitas vindas das mesmas pessoas e instituições que a haviam destruído décadas antes. Chamaram-na de "profetisa", louvaram sua "coragem", reconheceram que ela estava certa sobre os abusos da Igreja.

Mas ela nunca as ouviu. Morreu sabendo que dizer a verdade lhe custara tudo.

Kris Kristofferson – o homem que sussurrou aquelas palavras – compreendeu algo naquela noite de 1992 que a maioria ignorou. Ele entendeu que a história é pródiga em pessoas punidas por estarem certas cedo demais. Que a coragem se confunde com loucura quando se está sozinho. Que os transformadores do mundo são, quase sempre, destruídos primeiro para serem celebrados depois.

Naquele momento nos bastidores, ele não podia restaurar sua carreira, silenciar as vaias, protegê-la do que viria – os anos de exílio, a luta, a dor. Mas ele podia fazer uma coisa: Vê-la. Realmente vê-la. Não como a vilã que a turba havia decretado, mas como sua irmã na ancestral tradição dos que não se calam diante da verdade.

"Não deixe que esses desgraçados te abalem."

Cinco palavras que diziam: "Sei que foi um ato de bravura. Sei por que o fez. Sei que a farão pagar por isso. Mas não ouse deixá-los convencê-la de que estava errada."

Duas décadas depois, Sinéad finalmente falou publicamente sobre o gesto de Kris. Ela revelou que aquelas palavras – sussurradas num momento em que o mundo inteiro berrava – a mantiveram viva. Quando pensava em desistir, em se convencer de que talvez estivessem certos e ela fosse louca, lembrava-se: Kris Kristofferson acreditou nela.

Às vezes, é só isso que basta. Uma pessoa que se recusa a se juntar à turba. Uma pessoa que se mantém ao seu lado mesmo que isso lhe custe caro. Uma pessoa que sussurra a verdade quando todos os outros gritam mentiras.

Aos 25 anos, Sinéad O'Connor subiu àquele palco. Uma jovem mulher lutando para proteger crianças de uma instituição que falhara em seu dever. Pagou por essa coragem com a carreira, a reputação e, para muitos, a própria vida. Mas ela jamais cessou de bradar a verdade. E décadas depois, quando o mundo finalmente lhe deu razão, era tarde demais para que ela soubesse.

Há uma lição persistente que nos recusamos a aprender: aqueles que hoje chamamos de loucos podem ser os profetas que celebramos amanhã. As vozes que silenciamos podem ser as que mais precisávamos ouvir. As mulheres que desqualificamos por serem "demais" – raivosas demais, barulhentas demais, honestas demais – talvez sejam as únicas suficientemente corajosas para dizer o que todos os outros temem.

Sinéad O'Connor rasgou uma fotografia para defender crianças. O mundo a rasgou em pedaços por isso. E quando ela precisou de um aliado, um homem ali estava.

"Não deixe que esses desgraçados te abalem."

Cinco palavras que importaram. Importam agora. E importarão para sempre.


Em tempo:
O TEXTO CONTÉM EXAGEROS NARRATIVOS, mas a história é real.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Jards Macalé

Meus heróis vão me deixando sozinho e triste na pista.”
(Paulo-Roberto Andel)

Jards acordou de uma cirurgia cantando “Meu nome é Gal”; bem a característica dele, alegre e de bom humor, mesmo que seu rosto dissesse o contrário; e assim ele se despediu desse planeta; cantando e feliz.

A cada ser genial como Jards Macalé que nos deixa o coração aperta. Um artista fundamental para a música brasileira. Cantor, compositor, instrumentista e inquieto criador. Macalé construiu uma obra marcada pela liberdade e pela experimentação.

Um herói quase desconhecido, que embora não goste do reconhecimento em massa de muitos de seus pares, é um pilar indiscutível da música criado através do Atlântico. Revolucionário, visionário, moderno - há muitos adjetivos para descrevê-lo.

Aquele que entrou no Hotel das Estrelas e foi ser violonista de Nora Ney e Gal Costa. Ao sair, driblou o mal secreto da besta fera, o Dragão da Maldade e os contrastes de Macunaíma no cinema, assinando suas trilhas dissonantes, ainda que seu feito mor na sétima arte tenha sido mesmo ser dublê do nosso maior super-herói, Kid Morengueira, nas cenas perigosas dos morros cariocas.

Macalé nunca foi apenas um artista, foi um gesto de resistência.

Um homem que viveu a música com uma verdade tão intensa que não cabia em rótulos, nem em modas, nem nos limites impostos pela indústria.

Compositor inquieto, cantor de voz que doía e libertava, figura central da contracultura.

Foi também opositor firme da ditadura militar (1964-1985), colocando a sua arte na linha de frente.

Ao lado de Chico Buarque marcou o histórico Banquete dos Mendigos (MAM, 1973), enfrentando a censura com coragem. E de coragem fica a sua obra, com poesia e verdade, sua arte permanecerá.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

domingo, 20 de julho de 2025

Preta Gil - voz que não se cala


Partiu no dia 20 de julho de 2025, como quem fecha os olhos, mas não silencia a alma.

Preta Gil — não apenas nome, mas cor, brilho, herança e luz.

Filha da música, irmã da coragem, mãe da alegria e da liberdade sem moldura.

Cantou amores sem vergonha, abraçou corpos com ternura, desafiou o mundo com a própria existência.

Foi tambor e bandeira, foi palco e protesto, foi riso e lágrima em verso aberto.

Hoje, o Brasil chora.

Mas é um choro que também canta,
porque sua voz ficou — nos refrões que dançamos, nas lutas que ecoamos, na lembrança quente de quem nunca se apagará.

Voa, Preta.

Teu som agora embala o céu.

E aqui embaixo, teu nome ainda pulsa — preto, forte, vivo, Gil.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Precisamos Modernizar Ainda Mais o Carnaval

Durante muitos anos, escrevi artigos sobre a necessidade de os desfiles das escola de samba no Sambódromo serem realizados em três dias. Finalmente, isso aconteceu este ano e, sem dúvida com muito sucesso.

Meu argumento era óbvio e se confirmou na prática. Toda infraestrutura do Sambódromo já estaria montada, e o impacto positivo de mais de um dia no chamado Grupo Especial da Liesa traria ganhos econômicos significativos para o evento, tanto pelo aumento na arrecadação de bilheteria quanto pela maior comercialização de camarotes e produtos. Além disso, ampliaria a visibilidade dos patrocinadores - tudo isso com uma medida simples e um custo marginal bastante baixo. Ou seja, com uma pequena mudança, tivemos um aumento de 50% na oferta do principal produto dos desfiles: o Grupo Especial.

A decisão acertada do novo presidente da Liesa, Gabriel David, embora tenha recebido críticas de alguns seguimentos, é extremamente positiva. No entanto, acredito que alguns ajustes poderiam ser feitos, e deixo aqui minhas sugestões. Tenho certeza de que o prefeito Eduardo Paes trabalhará em sinergia para aprimorar esse modelo.

O formato de três dias, com 12 escolas, ainda é insuficiente para evitar que algumas agremiações tradicionais sucumbam no futuro, especialmente diante do fortalecimento de novas escolas, não apenas da Baixada Fluminense ( Caxias, Belfort Roxo e Nilópolis ), mas também da região leste da Baía de Guanabara ( Niterói, São Gonçalo e Maricá ), que chegam com alto poder financeiro.

Dessa forma muitas escolas tradicionais do Carnaval, fortemente ligadas à cultura do samba, especialmente da capital - como União da Ilha do Governador ( com alguns dos sambas mais icônicos do Carnaval ), Estácio de Sá, São Clemente, Tradição, Império Serrano, Caprichosos de Pilares, entre outras - terão dificuldades para retornar ao Grupo Especial e tendem a desaparecer. O enfraquecimento dessas escolas teria um impacto cultural e social profundo, especialmente nas comunidades onde estão inseridas, pois elas funcionam como centros de encontro, lazer e valorização da cultura do samba. Diante disso, acredito que o modelo de três dias deveria evoluir de quatro para cinco escolas por dia, ampliando o Grupo Especial de 13 para 15 escolas.

Nessa nova composição, poderíamos inovar com a criação de um prêmio para cada dia de desfile (como se fossem chaves eliminatórias) e, no último dia - sábado, no Desfile das Campeãs -, teríamos a escolha do "Supercampeão", reunindo as três vencedoras de cada noite, que desfilariam junto com a escola vencedora do Grupo Série Ouro.

Esse último dia poderia incluir, além do desfile, uma grande roda de samba ou um show especial para o anúncio do resultado final, transformando o evento em uma verdadeira apoteose.

Toda grande festa precisa se modernizar e não pode se resumir a uma mera competição.

O desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí impulsiona e fortalece a cultura do samba e do Carnaval ao longo do ano em diversas comunidades. No entanto, à medida que essas escolas perdem seu espaço de destaque, vão se enfraquecendo, especialmente pela falta de seus históricos patronos.

O novo presidente da Liesa, Gabriel David, mesmo enfrentando algumas resistências, tem o vigor da juventude. Com o apoio do prefeito Eduardo Paes, certamente estará aberto a novas propostas e deve considerar essa situação. Caso contrário, há um grande risco de que muitas escolas tradicionais deixem de existir no futuro.

TEXTO DE:
Wagner Victer
Engenheiro, Administrador, Jornalista

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Cláudia Leitte e seu Axé Gospel

Durante uma apresentação a cantora Claudia Leitte mudou a letra da canção “Caranguejo”. Em determinado momento da canção a artista trocou as palavras “saudando a rainha Yemanjá” para “eu canto meu rei Yeshua”, que significa Jesus em hebraico.

Tal postura fez com que muitas pessoas ficassem chateadas com a cantora, até porque não é a primeira vez que isso acontece. Em fevereiro deste ano, durante outro evento, Claudia fez a mesma mudança e à época os mesmo questionamentos sobre a postura dela também geraram polêmica.

Se você perguntar a ela, agora, dentro da casa dela, entrevista exclusiva no Câmera Record com o Roberto Cabrini, sem raiva, rancor, sem ressentimento algum, você colocar a mão no ombro dela e perguntar porque ela trocou a letra da música de Yemanjá, para Yeshuá, o que gerou uma polêmica no meio de um show, decepcionando milhões de pessoas, ela vai dizer exatamente isso: “Eu fiz porque eu creio que Jesus é o rei das águas, dos mares, da Terra, e não Yemanjá.” É isso meus senhores. Claudia Leitte é CRENTE. E o crente serve para crer. E ela faz apenas o que crente faz: CRER.

E ela crê na doutrina evangélica neopentecostal, invasiva, impositiva, que diz que Jesus é o dono da coisa toda. Que o Brasil é do senhor Jesus.

Portanto, é objetivo da Igreja levar o nome de Jesus a toda pessoa, povo e nação, em outras palavras, SUBJUGANDO, IMPONDO, DETURPANDO e TRANSFORMANDO toda e qualquer cultura, pensamento, poder que se recusa a servir essa ideologia. Isso tem um nome: Teologia da Prosperidade e Domínio.

Claudia Leitte acredita, de fato, que essa é a missão dela, como crente em Cristo; assim como os Atletas de Cristo que induzem apontar os braços para o céu assim que condensa um gol. Ela acredita real. Ela não é contra ninguém no mundo, em tese. Ela só é radicalmente a favor de um Jesus que ela aprendeu que vai dominar a Terra.

Ela deve ter chegando em casa e orado, entregando a Deus todas as “hostilidades” que fazem contra ela. Ela realmente pensa assim.

A Bahia está sendo um laboratório interessante de como um país rompe com a sua história para mudar o rumo, a mesma Bahia que começou o Brasil.

Baby do Brasil, no meio do carnaval, dizendo que o Apocalipse começou e devemos nos converter - teologia do domínio.

Netinho pregando arminha com a mão no trio elétrico - teologia do domínio.

Claudia Leitte mudando a letra - teologia do domínio.

O problema é que o Brasil está mudando. Antes, tinham os blocos de Carnaval de Jesus. Agora eles querem mais. Eles querem ser o próprio Carnaval. Querem a Estação Primeira de Mangueira cantando o hino da Assembléia de Deus, e dinheiro para financiar não é o problema, pagam a vista.

E vou te dizer, esse plano começou há 50 anos com Edir Macedo inaugurando a Igreja Universal do Reino de Deus pregando no coreto do Jardim do Meier. Eles venceram e seguem vencendo. Claudia Leitte, se processada, será mártir da fé e mais gente vai aderir a teologia.

O Brasil é do Senhor Jesus. O Deus da carnificina. Do policial no quartel ao traficante no Complexo de Israel. Do cantor gospel do púlpito a zona sul de Caetano Veloso.


TEXTO DE:

Thiago Muniz

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Neguinho da Beija-Flor

Domingo, eu vou pro maracanã
Vou torcer pro time que sou fã
Vou levar foguetes e bandeira
Não vai ser de brincadeira
Ele vai ser campeão…
(Neguinho da Beija-Flor, trecho de
O Campeão

Olha a Beija-Flor aí, gente”; Luiz Antônio Feliciano Neguinho da Beija-Flor Marcondes (nascido em Nova Iguaçu, 29 de junho de 1949), é um sambista, intérprete musical, cantor e compositor brasileiro. É, desde 1976, o intérprete oficial da escola de samba Beija-Flor.

E depois de 50 anos brilhando no Carnaval carioca, Neguinho da Beija-Flor se despedirá da função de intérprete. E já desperta saudades. Em 2025, cantará a exaltação de seu maior parceiro, Laíla – a quem conheceu ainda antes do primeiro Carnaval, na lendária roda de samba do Bola Preta – como epílogo dessa odisseia que durou meio século de folia e felicidade.

Durante o anúncio, o intérprete chorou, muito emocionado, ao explicar que a partida é mais dolorosa por ter que se despedir da Beija-Flor de Nilópolis.
O sambista disse que não sairá dos palcos e continuará com a sua carreira como cantor.

De acordo com Neguinho, sua despedida da Beija-Flor terá pelo menos duas etapas. Além de sua 'última dança', ou último samba, em 2025, Anísio Abraão David, presidente de honra da escola, prometeu preparar uma grande festa na Cidade do Samba, na Zona Portuária do Rio.

Baluarte da escola, Neguinho foi a voz de todos os 14 campeonatos conquistados pela azul e branca da Baixada Fluminense:

★ 1976: Sonhar com rei dá leão
★ 1977: Vovó e o Rei da Saturnália na Corte Egipciana
★ 1978: A criação do mundo na tradição nagô
★ 1980: O sol da meia-noite, uma viagem ao país das maravilhas
★ 1983: A grande constelação das estrelas negras
★ 1998: O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-Anu
★ 2003: O povo conta a sua história: Saco vazio não para em pé. A mão que faz a guerra faz a paz
★ 2004: Manôa, Manaus, Amazônia, Terra Santa: Alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz
★ 2005: O vento corta as terras dos pampas. Em nome do pai, do filho e do espírito guarani. Sete povos na fé e na dor... Sete missões de amor
★ 2007: Áfricas – Do berço real à corte brasiliana
★ 2008: Macapaba – Equinócio solar. Viagens fantásticas ao meio do mundo
★ 2011: A simplicidade de um Rei
★ 2015: Um griô conta a história: Um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade
★ 2018: Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

QUINCY

Quincy Jones é uma personificação inspiradora da capacidade humana de transcender adversidades e moldar o próprio destino. Originário de uma Chicago empobrecida e marcada pela violência dos anos 1930, ele emergiu como uma das figuras mais proeminentes da música internacional, deixando um legado que transcende gerações.

Sua ascensão meteórica como produtor e arranjador não passou despercebida. Aos poucos, Quincy se estabeleceu como uma figura influente na indústria musical, colaborando com lendas como Lesly Gore, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong e Sarah Vaughan. Sua produção do álbum "For Those in Love" de Dinah Washington, contra a vontade da gravadora, solidificou sua reputação como um visionário musical.

Compositor, arranjador, produtor e empresário de sucesso, ele é um verdadeiro monstro sagrado na indústria do entretenimento. Em seus mais de 60 anos de atividade, detém o recorde de 80 indicações para o Grammy, com 28 prêmios e um Grammy Legend, em reconhecimento à sua carreira.

"Q", como era conhecido, sempre foi um profissional atento e foi um dos primeiros a compreender os movimentos musicais e comportamentais que se formavam durante o início da massificação da imagem e do som. Com alguns baixos e muitos altos, construiu uma carreira fenomenal: gravou mais de 300 álbuns e 2.900 músicas; fez 51 trilhas de filmes e programas de televisão; foi indicado 79 vezes e ganhou 27 prêmios Grammy; também levou os prêmios Oscar, Emmy e Tony.

Quincy Jones ficou mundialmente conhecido por ao lado do Rei do Pop Michael Jackson, foi o responsável pela produção de três álbuns: Off The Wall, em 1979, Thriller, em 1983, e Bad, em 1987. Apenas no ano do lançamento, Thriller vendeu mais de 20 milhões de cópias. O músico também produziu “We Are The World”, projeto que reuniu diversas estrelas em 1985 com a intenção de arrecadas fundos para a luta contra a pobreza na África. Além de Michael Jackson, participaram artistas como Lionel Richie, Bruce Springsteen, Cindy Lauper, Stevie Wonder, Bob Dylan e Billy Joel.


TEXTO DE:

Thiago Muniz

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Marisa Monte: Histórias curiosas por trás de cinco músicas

Marisa Monte é uma das maiores cantoras do Brasil, e não será exagero dizer do mundo.

Neste especial, trazemos algumas particularidades de cinco de seus maiores sucessos. Cinco histórias simpáticas sobre músicas da maravilhosa cantora.

GENTILEZA

Você pode ter visto as placas de "Gentileza gera Gentileza" em várias cidades brasileiras, sem saber a história por trás da frase. Esse era o lema do Profeta Gentileza, cujo nome civil é José Datrino.

A partir de 1980, ele fez inscrições artísticas em verde e amarelo nas pilastras do Viaduto do Gasômetro, no Rio de Janeiro. Eram críticas sociais e propostas para uma vida com mais respeito e bem-estar. Anos mais tarde, as artes foram apagadas com uma tinta pela Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro. E assim surgiu a inspiração para a música Gentileza, de Marisa Monte.

"Apagaram tudo // Pintaram tudo de cinza // Só ficou no muro tristeza e tinta fresca // Nós que passamos apressados // Pelas ruas da cidade // Merecemos ler as letras e as palavras de Gentileza"

A letra é um protesto ao estilo de vida frio das grandes cidades, em que muitas vezes a gentileza fica em segundo plano. O clip completa a mensagem da composição, com imagens do Profeta Gentileza em meio as cenas do cotidiano da capital carioca.

AMOR I LOVE YOU

Há 25 anos, nascia a atriz Clara Buarque, filha do cantor Carlinhos Brown com Helena Buarque, e, também, a fonte de inspiração para o hit Amor I Love You. A música é uma composição de Marisa Monte com o artista, que é parceiro dela na banda Tribalistas.

Considerada uma das melhores músicas da cultura pop brasileira dos anos 2000, a letra é uma declaração de amor. O sucesso foi tanto que Amor I Love You recebeu uma indicação ao Grammy Latino, na categoria de Melhor Canção Brasileira.

De acordo com a própria Clara, a canção foi escrita em homenagem a ela. Ao responder um perfil nas redes sociais, em 2021, a atriz confirmou que o pai e Marisa escreveram a música para ela "quando estava na barriga da mãe".

A música conta ainda com um trecho do livro O Primo Basílio, de Eça de Queirós, recitado por Arnaldo Antunes,  que também integra os Tribalistas. A obra é uma crítica às famílias burguesas urbanas no século XIX, que escondiam os problemas para viver de aparência.

No Twitter, Marisa disse que o trecho lido "descreve a sensação da personagem Luísa ao se apaixonar". O clip também mostra imagens de um casal e figurinos do século XIX.

JÁ SEI NAMORAR

Um dos maiores hits dos Tribalistas quase ficou "esquecido", nas palavras de Marisa. Em entrevista dada ao programa Conversa com Bial, ela revelou ter enviado duas melodias para Arnaldo Antunes em uma fita cassete. Uma delas se tornou o sucesso Beija Eu, do primeiro álbum de estúdio da cantora.

"A outra ficou pra lá. Quando eu fui para Bahia, sei lá, dez anos depois, para gravar com eles ( Arnaldo e Brown ), eu, claro, vasculhei e levei essa fita cassete. E falei que tinha outra música aqui na fita. Era Jásei namorar. Eu e o Brown fizemos essa primeira frase, o Arnaldo chegou e a gente terminou junto".

VILAREJO

O álbum Infinito Particular, lançado em 2006, exaltou Marisa Monte como compositora. Todo o projeto foi escrito por ela ao lado de outros artistas. É nele que está a música Vilarejo.

A letra foi composta ao lado dos amigos da banda Tribalistas, Brown e Antunes, e Pedro Baby, filho de Baby Consuelo e Pepeu Gomes. E, de acordo com a artista, a canção fala sobre uma utopia.

"Vilarejo é um local imaginário, mora no sonho, dentro de cada um de nós. Cada um de nós tem uma recordação de algum lugar que dá aquela sensação, conforto, aquela alegria e aquele prazer de estar naquele vilarejo, mas ele está dentro da gente te mesmo", explicou.

Apesar da melodia e das mensagens alegres, o clipe é bem sombrio. Em meio a cenas de Marisa tocando um violão, há imagens tristes, como guerras, pessoas passando fome, e desigualdade social, em um filtro preto e branco.

A música tem um simbolismo especial para Marisa. Nas redes sociais, ela compartilhou o comentário de uma seguidora sobre a experiência de ser mãe com Vilarejo ao fundo.

DÉJÀ VU

Presente no mais recente álbum da cantora, Portas, a canção Déjà Vu é resultado de uma parceria com Chico Brown, filho de Carlinhos Brown e neto de Chico Buarque. Em entrevista ao O Popular, o cantor disse que escreveu os cinco primeiros versos da música, inspirado por ritmos africanos.

Marisa e Chico finalizaram a faixa por telefone. "Eu mandei (whats app), um arranjo cantando a melodia em versos, toquei instrumentalmente. O que era o final de uma música, ela transformou em refrão", disse na entrevista.

A parceria se repetiu em outras quatro músicas do Portas, como é o caso de Em Qualquer Tom. Brown revelou que começou a escrever a faixa, mas não conseguia finalizar, nem com a ajuda do avô.

Foi só mostrar a canção para Marisa, que Em Qualquer Tom nasceu. "(Compor com a) Marisa é uma coisa muito coletiva e mágica por mais que a melodia já esteja entrelaçada ou seja um quebra-cabeça que a gente vai montando junto. É sempre uma troca muito bonita, genuína", contou o artista.

FONTE

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Como nossos Pais, ou não?

 
"Como Nossos Pais" foi lançada por Belchior em 1976 no álbum Alucinação. Mas a canção foi transformada em hino de uma geração por Elis Regina, no mesmo ano, no espetáculo Falso Brilhante, que depois virou LP.

Além dessa Elis cantava “Velha Roupa Colorida”, também do cearense.

"Como Nossos Pais", no entanto, com seus versos contundentes contra a ditadura militar, que vivia um de seus períodos mais truculentos, se tornou um símbolo da juventude inconformada e da contracultura naquele momento: 

"Por isso, cuidado, meu bem / Há perigo na esquina / Eles venceram e o sinal está fechado pra nós / Que somos jovens".

Hoje a canção foi lançada como jingle num clipe celebrando os 70 anos da Volkswagen do Brasil.

 A peça publicitária traz ainda como protagonista a cantora Maria Rita contracenando com sua mãe, recriada por IA.

A face de Belchior aparece numa camiseta. O mais irônico é que a montadora alemã colaborou com o regime militar no Brasil, facilitou a prisão de funcionários e se beneficiou do modelo econômico implementado pela ditadura.  

Mas, além da crítica ao regime, a música trata especificamente de um conflito de gerações. É uma indireta ácida àqueles que sucumbiram ao poder da grana que corrompe os ideais de juventude:

"E hoje eu sei que quem me deu a ideia / De uma nova consciência e juventude / Está em casa, guardado por Deus / Contando vil metal". 

Aqui entra a questão da memória do compositor e da intérprete. Tenho muitas dúvidas se Belchior, caso estivesse vivo e lúcido, venderia uma de suas músicas mais icônicas como jingle de comercial da VW.

Inclusive porque o roteiro da peça publicitária, usando símbolos icônicos da contracultura, pessoas viajando em kombis nos anos 70, músicos, acampamentos na fogueira, um casal transando dentro de um carro, o ideal de liberdade e toda uma estética hippie, para vender uma ideia diametralmente oposta ao que diz a letra da canção.

Belchior, o compositor atormentado, que inclusive morreu no seu auto-exílio completamente avesso à mídia, à publicidade, a qualquer tipo de concessão ao mercado. 

Elis por sua vez, por mais tentadora que seja a ideia hipotética de cantar junto com a filha que ela não viu crescer, talvez também não aprovasse a ideia de transformar um de seus maiores sucessos, senão o maior, num jingle enaltecendo um empresa alemã que colaborou com a ditadura que ela tanto combateu. 

Mas ela está lá, emocionando as pessoas, incrédulas com as possibilidades da inteligência artificial para promover um carro elétrico, depois de anos de lobby contrário às fontes alternativas promovido pela indústria do combustível fóssil, da qual a VW faz parte.

Além disso a peça apela de uma forma como só a publicidade sabe fazer, à memória afetiva das pessoas. Todo brasileiro nascido antes da virada do milênio já andou num fusca, numa Kombi, numa Brasília, num Karmann-Ghia dos pais, dos avós, de um tio. Mas será que somos mesmo iguais a eles? Não sei, para mim tudo parece meio desonesto e fora de lugar nesse clipe.


TEXTO DE:

Makely Ka, cantor, compositor e escritor

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Astrud nunca foi perdoada

Antes e depois de Astrud Gilberto, só dois artistas brasileiros fizeram sucesso de verdade nos EUA: Carmen Miranda e Sergio Mendes

Por de verdade entendam-se discos aos milhões, presença em programas de TV e sua adoção pelos americanos como se eles fossem um deles. 

Claro que, em termos de adoção pelos profissionais da música —produtores, arranjadores, maestros, instrumentistas, cantores—, ninguém chegou perto de Tom Jobim.

Para nós, aqui, tanto faz: se um brasileiro estoura nos EUA, não pode ser perdoado.

Astrud, que morreu na Filadélfia nesta terça (6), aos 83, cometeu o crime de fazer com que os americanos se apaixonassem por ela. 

Mas, se o Brasil nunca entendeu o porquê disso, o primeiro a se atordoar foi Creed Taylor, produtor do LP "Getz/Gilberto" contendo o "The Girl from Ipanema" por Astrud

O disco, com João Gilberto e Stan Getz, foi gravado em março de 1963. Taylor, sem saber o que fazer com ele, engavetou-o até abril de 1964, quando decidiu enfim soltar a faixa de Astrud como um single. 

Para sua surpresa, os EUA se atiraram a ele, abrindo o caminho para o LP, o Top 5, a disputa com os Beatles, os Grammys e a eternidade.

Como explicar? Uma teoria é a de que os EUA viviam tempos difíceis, com o assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, e o envio dos primeiros soldados para uma guerra sem sentido no Vietnã

De repente, uma garota de corpo dourado caminhou por uma praia chamada IpanemaIpa what?—, ao som de um ritmo morno e sensual. Era um novo Shangri-La, e Astrud foi identificada com essa garota.

Depois disso vieram muitos outros discos.

Hoje, quando sentem saudade dos anos 60, os americanos mais velhos citam Astrud. Nós é que nunca assimilamos o seu sucesso.

No apogeu, Astrud vinha ao Rio para ver a família e passeava por Ipanema sem ser reconhecida. Em seu único show de verdade no Brasil, em 1966, foi vaiada.


TEXTO DE RUY CASTRO

Folha de S. Paulo 07/06/2023


LEIA MAIS EM:

Morre Astrud Gilberto

terça-feira, 9 de maio de 2023

Rita Lee por Paulo-Roberto Andel

 

Paulo-Roberto Andel 

(para o blog Língua Preta)


Rita Lee está na minha vida desde criança. Em 1979 e 1980 ela era onipresente no rádio e na TV, tocava o tempo todo e, claro, o sucesso era redundância. Fomos educados com "Lança perfume", "Baila comigo", "Atlântida", "Chega mais", "Final feliz" e a instigante "Mania de você" (que algumas meninas cantavam baixo, por causa dos versos).

Mas muito antes da minha meninice, Rita já era um colosso. Afinal, em fins dos anos 1960 ela já era a voz e o - lindo - rosto dos Mutantes, banda que tardiamente ganhou o merecido respeito mundial. Uma "ídola" da Tropicália. Genial.

Falar o que todo mundo já falou é desnecessário. Todos sabemos da importância de Rita para a cultura popular brasileira, a luta contra a ditadura, o machismo e muito mais. Seu humor, sua verve, seu estilo único de letrista. Destaco a fala do multi artista Makely Ka, sobre o fato de Rita ser a maior compositora brasileira da segunda metade do século XX - e é isso mesmo. Suas músicas traziam a essência da Tropicália, numa verdadeira geleia geral que misturava circo, reinos perdidos, tesão, paixão e sorriso.

Talvez, e só talvez, a maior façanha de Rita tenha sido fazer o pop rock ganhar o Brasil de verdade em todas as classes. Se mães e avós já se divertiam escutando e vendo novos artistas como os Titãs e os Paralamas do Sucesso, é porque já estavam adocicadas pelos hits de Rita desde os anos 1970 - e muitos deles ecoaram por todo o Brasil através das novelas, assobiados por milhões de fãs. Todo mundo cantava, todo mundo conhecia, era pop mas nunca perdia a pegada rock. Não há como deixar de lado seu grande parceiro de música e de vida, Roberto de Carvalho, corresponsável por um batalhão de sucessos eternos.

Desde muito, muito tempo atrás, eu não sei o que é o cotidiano sem Rita Lee. Quando comecei a escutar música regularmente, ela já estava ali gigantesca. Lá se foram mais de quarenta anos. Hoje as cortinas se fecharam, mas para uma artista do tamanho de Rita Lee, uma vida intensa de 75 anos funciona como mera preliminar para uma eternidade esplêndida. 

Em tempo: os Mutantes foram espetaculares, mas não o seriam sem Rita Lee.

Rita

Como disse Roberto de Carvalho: "Pai, filhos e ESPÍRITA SANTA!"

Depois de muita luta em decorrência do câncer, partiu Rita Lee. A integrante feminina da melhor banda de rock brasileiro de todos os tempos: Os Mutantes. Integrante assídua do movimento Tropicalhista, soube e processou a sua maneira a criar o seu estilo próprio artístico, com uma parceria fenomenal com seu fiel escudeiro e marido até o fim de seus dias Roberto de Carvalho canções antológicas.

Ela queria ser desde sempre um espírito livre, ainda que paparicado, com uma retaguarda forte e uma irresponsabilidade infantil que permeou os seus 75 anos de idade.

Rita Lee viveu uma vida de almanaque, e foi como um almanaque que ela decidiu contar  sua vida em livro, ainda que a prosa seja errática e a memória, um pouco enevoada.

Quando penso que isso é bom, eu penso em Rita Lee. Quero cantar São Paulo, quero cantar nosso tempo. Mais fundo e mais simples, quero cantar e mais nada. Cinquentões adolescentes ganhando no braço do baixo-astral do Brasil, se nossa “menopausa (sic!) criativa” for assim, welcome seja! Para sempre teu.

Mais ou menos naqueles tempos meus de jovem eu descobri outra garota, um pouquinho mais velha, mas também ruiva, sardenta e de pernas muito longas. Ela se chamava Rita Lee, por quem eu me encantei aos 10 anos, em 1993, quando ouvi pela primeira vez no toca discos de meu pai a canção Fruto Proibido, um dos grandes álbuns da história do rock brasileiro, gravado com a banda Tutti Frutti. A capa do LP, em tons de rosa e lilás, trazia a ex-Mutante em uma encarnação glam rock tupiniquim, com os cabelos vermelhos e picotados à la David Bowie. Aos meus olhos, ela não era uma cantora ou uma pop star: nela, eu enxergava uma super-heroína, saída dos gibis e dos desenhos animados.

Muito amor e sexo! Dejá vu musical.


TEXTO DE:

Thiago Muniz

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Se me levam, eu vou

Tim Maia foi um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos, e também dos mais complicados. Seus shows, disputadíssimos desde os anos 1970, em algumas ocasiões não foram realizados pela, digamos, ausência do astro.

Não posso reclamar. Fui a seis shows de Tim e, por incrível que pareça, ele compareceu a todos. Apenas em um a performance ficou um pouco abaixo do normal, porque ele cantou pouco - na maior parte do tempo "Cantem comigo vocês" -, sendo xingado pela turma do fundo do Canecão e replicando: "Vocês são um bando de doidões. Vale tudo!". Neste mesmo show, encantado com a beleza física de uma fã madura na primeira fila de mesas do Canecão, não titubeou: "Minha senhora, com todo respeito, mas que pernão delicioso a senhora tem. Com todo respeito, que coxão!"

Poderia ter havido um sétimo show, mas fui prudente o suficiente para não arriscar. Eu estava no Shopping Rio Sul num sábado, quando um amigo me falou que podíamos comprar uns ingressos do Tim Maia para nossa turma, no caso para o dia seguinte, domingo. Aí pensei: eu ia pro Maracanã ver o Flu às 17h. Depois do jogo, teria que correr para chegar a tempo. Outra coisa: quem realmente iria conosco? E se não quisesse ir, já com o ingresso na não? Achei melhor não comprarmos e combinarmos com a turma, o que acabou não rolando. No domingo fui pro jogo, voltei, cheguei em casa e meus pais estão vendo uma chamada urgente no Fantástico: "Fãs revoltados exigem dinheiro de volta dos ingressos para o show de Tim Maia, que não veio". Fui obrigado a rir. 

O melhor de todos foi no Parque Garota do Arpoador, em 1990, com entrada franca. Marcado para às 20 horas, começou quase uma hora antes - as multidões começaram a correr para o parque, ouvindo a voz de Tim, sem entender porque o show havia começado antes. Um palpite? Tim, junkie de carteirinha, acordou às cinco da tarde, tomou um banho e se mandou para o parque cheio de disposição. Lá chegando, se sentiu à vontade para começar a programação. Foi um showzaço de três horas e a plateia cantou como nunca. Tim começava a viver seu último apogeu, redescoberto por públicos mais jovens, a partir da gravação de "W. Brasil" feita por Jorge Benjor, da regravação de "Chocolate" por Marisa Monte e de "Você", pelos Paralamas do Sucesso

Naquela época, quem quase veio ao Brasil foi Sir Elton John. Em cima da hora a turnê furou. Diante do público extasiado pelo showzaço, o galhofeiro Tim Maia não perdoou na despedida de sua apresentação: "Muito obrigado, fiquem com Deus e não se esqueçam: Elton John não veio, mas  Maia veioooo!". O público foi ao delírio com a voz mais poderosa do país.


TEXTO DE:

Paulo-Roberto Andel