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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Entre a legalidade e a moralidade: quando o sindicato senta dos dois lados da mesa

Existem situações na vida pública que não cabem na categoria do crime, mas tampouco cabem no terreno confortável da normalidade institucional.

A nomeação de um presidente de sindicato para assumir uma pasta na administração municipal, mantendo simultaneamente (mesmo qie indiretamente), o comando da entidade sindical, é uma dessas zonas cinzentas que exigem menos grito e mais reflexão.

Antes de tudo: não se trata, em regra, de ilegalidade automática.

A Constituição Federal de 1988 assegura a liberdade e a autonomia sindical. A Consolidação das Leis do Trabalho também não estabelece vedação genérica para que um dirigente sindical ocupe cargo público.

E a Lei de Improbidade Administrativa só entra em cena quando há ato concreto que viole princípios da administração ou gere vantagem indevida.

Portanto, do ponto de vista estritamente formal, a acumulação pode existir.

O problema começa quando saímos do campo da legalidade e entramos no terreno mais exigente e mais frágil da moralidade administrativa.

Se o sindicato representa servidores municipais e seu presidente passa a comandar uma secretaria justamente no mesmo município, cria-se uma situação desconfortável: ele pode estar, em tese, negociando com a própria estrutura que integra.

Ainda que haja boa-fé, a aparência de conflito de interesses se impõe. E, em matéria de administração pública, a aparência também importa.

"À mulher de Cézar não basta ser honesta, há de se parecer honesta."

A administração pública brasileira é regida por princípios como legalidade, impessoalidade e moralidade.

Não basta não cometer crime; é preciso evitar circunstâncias que fragilizem a confiança pública. Quando decisões sindicais passam a beneficiar diretamente a pasta comandada pelo próprio dirigente (seja por meio de negociações salariais, reorganizações administrativas ou vantagens específicas), a situação deixa de ser apenas delicada: torna-se eticamente comprometida.

Não se afirma aqui que todo caso será imoral. Há contextos em que:

  • o sindicato não representa servidores municipais;

  • o dirigente se afasta formalmente da presidência;

  • há mecanismos transparentes de impedimento e declaração de conflito.

Nessas hipóteses, o risco diminui.

Mas quando o dirigente permanece no comando sindical, participa de decisões estratégicas e ocupa simultaneamente um posto no Executivo municipal que pode ser direta ou indiretamente beneficiado por deliberações sindicais, o problema não é jurídico — é moral e político.

A política brasileira já sofre de déficit de confiança. Não precisa de arranjos que, embora tecnicamente permitidos, pareçam convenientes demais para quem ocupa posições de poder.

A pergunta que deve orientar a análise não é “é crime?”, mas sim: é adequado? preserva a autonomia sindical? protege o interesse público? evita qualquer sombra de favorecimento?

Nem tudo que é legal é prudente.

Nem tudo que é permitido é recomendável. 

E, em democracia, a ética não é um acessório ornamental, é o que sustenta a credibilidade das instituições.

TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Família Opressora Brasileira

Uma pessoa que se auto declara conservadora é nada mais nada menos que conservar a sua hipocrisia e sua ignorância com a realidade dos fatos.

Vejamos pessoas fanáticas pela extrema direita comemorando o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói por terem abordado o enredo sobre Luiz Inácio Lula da Silva.

Meus queridos, um detalhe: por questão histórica toda escola que sobe da série Ouro é praticamente fadada ao rebaixamento no ano seguinte; a caneta dos jurados é mais pesada, o sarrafo é mais alto na hora de dar as notas.

E a Niterói sabe disso; então resolveram abordar um enredo que eles sabiam que geraria burburinho. Lula gera desconforto aos candidatos a opressores, aos postulantes a raivosos. E deu um All-in perfeito.

A extrema direita por si só não tem apreço à cultura, as artes e a educação. Comemorar a desgraça alheia é a rotina perfeita de uma corja que não sensibiliza pela humanidade. Uma corja que bota a culpa na mãe pelo assassinato de seus filhos pelo pai deles. Uma corja que passa pano para pedófilos e lacradores da fé. Uma corja que protege assassinos de um pobre cachorro. 

Portanto, quando vemos um enredo como Ciça ganhar o Carnaval, vemos a vitória de toda uma engrenagem por trás do universo do samba. É uma vitória de todas as escolas de samba, um tapa na cara do desgosto e do recalque.

Eu sugiro a todos os admiradores da extrema direita a se mudarem para o estado de Santa Catarina; a capital do nazifascismo, o pilar do ódio e da ignorância. E enfiem o dedo no cool e rasguem até necrosar.

TEXTO DE:
Thiago Muniz


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Adolf Trump ou Donald Hitler?

Donald Trump publicou em uma rede social, uma imagem do Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, e a sua esposa, Michelle Obama, em corpos de macacos.

Sim! A Klu Klux Klan está dentro da Casa Branca e com o aval de boa parte da população dos EUA.

Isso não é só uma provocação política, isso é uma ofensa racial explícita.

Olhe o peso histórico que isso carrega.

Comparar pessoas negras a macacos não é uma metáfora infeliz, é um dos símbolos mais antigos, mais violentos, mais cruéis da desumanização racial no mundo. Foi esse imaginário que sustentou a escravidão, o colonialismo, a segregação, a ideia de que certos corpos seriam menos humanos do que outros.

Nos Estados Unidos, essa imagem tem um significado ainda mais cruel. Ela foi usada durante séculos para justificar a escravidão de milhões de africanos, a sistemática perseguição a mulheres negras, a separação das famílias, os linchamentos, as leis de segregação e exclusão social, que foram institucionalizadas nos Estados Unidos até a década de 1960.

Isso é história. Isso é reativar conscientemente um código de violência simbólica que atravessa gerações. Tem uma coisa muito grave aqui, que é o colapso do decoro institucional. Um chefe de estado não pode falar isso, nunca pode falar isso.

Ninguém pode falar isso, ainda mais um chefe de estado. Ele está carregando com ele o peso do cargo que ele está ocupando, da democracia que representa (mas não respeita!) e que ele representa as instituições que ele deveria proteger.

Quando alguém nessa posição normaliza um ataque como esse, a gente está desumanizando pessoas e estamos dizendo que é aceitável.

A política democrática pressupõe discordância, até debate, dureza. Ela não comporta a destruição do outro como ser humano. Quando esse limite é ultrapassado, a gente não está falando mais de direita, de esquerda, de conservador, de progressista. A gente está falando de civilização.

Normalizar um gesto como esse não fortalece ninguém, empobrece o debate público. Esse episódio não pode ser tratado como uma polêmica, ele tem que ser nomeado pelo que ele é, racismo explícito, desprezo institucional e falência ética.

A política imigratória de Trump, uma política xenófoba, racista e que tem atacado os direitos humanos e que tem sido muito prejudicial nos Estados Unidos.

A democracia é isso, uma experiência na qual a ideia de justiça é permanentemente em aberto para que quem vem depois pense se aquilo é justo para ele. O que foi justo para os nossos bisavós não é justo para nós. É preciso que a gente repense tudo isso, e é pela educação que se faz.

Então, é preciso um chamamento aos homens, é preciso, tem que ser constrangedor.

Fazer piada racista, machista, misógena, banalizar corpo, atitude, emancipação feminina, autonomia, é preciso ser constrangedor.

Essas pessoas têm que voltar para o armário dos traumas que eles têm, dos distúrbios que eles venham a ter, do ódio que eles carregam, vão se tratar, vão se tratar.

Não é mais aceitável esse ambiente de violência extrema, o silêncio dos bons. Se temos bons homens, bons pastores, bons líderes religiosos, bons líderes políticos, vambora trabalhar para acabar com esse cenário.

TEXTO DE:
Thiago Muniz



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A matemática da indecência

O Congresso Nacional voltou a provar que não sofre de ignorância econômica, mas de algo bem mais grave: falta de vergonha na cara.

Na tarde de terça-feira (3), Câmara e Senado aprovaram um reajuste salarial para seus servidores cujo impacto chega a R$ 790 milhões. Um valor que supera a arrecadação anual de 95% dos municípios brasileiros. Sim, quase todo o Brasil real cabe dentro do aumento concedido ao Brasil oficial.

Agora, respire fundo e faça o exercício de memória que certos parlamentares preferem evitar.

São os mesmos políticos que, não faz muito tempo, torceram o nariz, fizeram discursos sobre “responsabilidade fiscal” e votaram contra — ou sabotaram — o vale-gás, um benefício modesto destinado a famílias que precisam escolher entre cozinhar ou comer. Para o pobre, o cofre está sempre vazio; para o próprio umbigo, o Tesouro é elástico.

A lógica é cristalina:
– R$ 100 para o gás? “Populismo”, “assistencialismo”, “rombo nas contas públicas”.
– R$ 790 milhões para a elite administrativa do Parlamento? “Valorização do servidor”, “justiça salarial”, “necessidade institucional”.

É uma contabilidade moralmente fraudulenta.

O problema não é a existência de servidores públicos — eles são essenciais.

O problema é o timing, o contexto e, sobretudo, a hipocrisia.

Num país em que municípios fecham postos de saúde por falta de verba, em que prefeitos mal conseguem pagar professores, o Congresso decide que a urgência nacional é reajustar salários no coração do poder.

E note-se: não se trata de ignorância sobre a realidade social. Trata-se de consciência plena. Eles sabem. Sabem que o valor do reajuste pagaria o gás de milhões de famílias por meses. Sabem que o discurso da austeridade só aparece quando o destinatário é pobre. Sabem — e fazem mesmo assim.

Isso não é erro de cálculo. É escolha política.

Quando um Parlamento vota com rapidez para garantir conforto aos seus e demora, trava ou rejeita políticas mínimas de proteção social, ele envia uma mensagem clara: o Estado existe, antes de tudo, para quem manda.

Depois, claro, virão os discursos inflamados sobre “desigualdade”, “sensibilidade social” e “compromisso com o povo”.

Palavras são baratas.

O que custa caro — R$ 790 milhões, por exemplo — é sempre reservado a quem já está sentado à mesa do poder.

O resto que se vire com o botijão vazio.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Beto Simonetti: quando defender a Constituição vira ato de coragem

A obrigação moral de aplaudir quem faz o básico, em 2026, é profundamente reveladora.

Beto Simonetti, presidente da OAB, no primeiro dia da retomada dos trabalhos do Legislativo, limitou-se a dizer o que está escrito — pasmem — na Constituição.

E fez disso um pronunciamento.

Corajoso? Não.

Necessário.

O que diz muito mais sobre o ambiente do que sobre o orador.

Simonetti defendeu o STF e o devido processo legal. Não pediu revolução, não clamou por “ativismo judicial”, não invocou teorias criativas sobre “vontade popular acima da lei”.

Apenas lembrou que democracia não é um reality show institucional em que se elimina o Supremo por voto emocional.

É chato, eu sei. Funciona com regras. E regras, por definição, frustram os ansiosos por atalhos.

O presidente da OAB fez algo que hoje soa quase insolente: reafirmou que o Supremo Tribunal Federal não é um capricho de toga, mas um pilar do arranjo constitucional.

Que decisões judiciais não se combatem com linchamento retórico, mas com recursos — dentro da lei, esse palavrão. E que devido processo legal não é um detalhe burocrático inventado para proteger “os de cima”, mas a última trincheira de qualquer cidadão quando a turba resolve achar culpados antes de provas.

Sim, houve quem torcesse o nariz. Sempre há. Afinal, vivemos tempos em que parte do debate público acredita que garantias constitucionais são privilégios e que juízes devem decidir conforme o humor das redes sociais.

Simonetti foi lá e estragou a festa: lembrou que não há democracia sem instituições, nem instituições sem limites, nem limites sem STF.

A ironia maior é esta: defender o Supremo hoje virou, para alguns, sinônimo de autoritarismo.

Uma ginástica mental admirável.

Segundo essa lógica, autoritário é quem aplica a Constituição; democrático é quem quer rasgá-la em nome de uma abstração chamada “povo”, geralmente definida por quem grita mais alto.

Ao se posicionar, a OAB — por meio de seu presidente — fez aquilo que dela se espera desde 1930: não defender governos, partidos ou humores, mas o Estado de Direito.

Num país em que o óbvio anda desaparecido, isso soa quase como um manifesto.

Convém registrar: não se trata de idolatrar o STF, instituição humana e falível, como qualquer outra. Trata-se de entender que a crítica legítima não prescinde de legalidade, e que o ataque sistemático às Cortes não é “liberdade de expressão”, mas método conhecido de erosão democrática.

Beto Simonetti não salvou a República. Não era esse o ponto. Apenas lembrou onde ela está escrita.

E, convenhamos, num tempo de analfabetismo constitucional militante, isso já é um serviço público dos bons.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Ideologia elástica: o anti-sistema

Poucas expressões circulam com tanta desenvoltura — e com tão pouca precisão — no debate público atual quanto “anti-sistema”.

Ela aparece em discursos eleitorais, em threads indignadas, em manifestos improvisados e em mesas de bar.

É uma palavra de ordem que une sujeitos muito diferentes, frequentemente inimigos entre si, mas que compartilham uma mesma certeza: o problema está no sistema.

O detalhe incômodo é que quase ninguém concorda sobre o que exatamente ele seja.

Do ponto de vista da teoria política, o “anti-sistema” funciona como aquilo que Ernesto Laclau chamou de significante vazio: um termo que não possui um conteúdo fixo, mas que se torna um ponto de convergência de demandas, frustrações e ressentimentos heterogêneos.

Ele não explica a realidade; antes, organiza afetos. É menos um conceito e mais um recipiente.

Na Esquerda mais radical, o sistema costuma receber um nome clássico e respeitável: capitalismo.

Ele aparece como uma totalidade quase metafísica, capaz de explicar desde a precarização do trabalho até a ansiedade individual.

Aqui, o anti-sistema carrega uma tradição teórica robusta — Marx, Rosa Luxemburgo, Gramsci —, mas muitas vezes herda também um problema antigo: a tendência a transformar uma crítica estrutural legítima numa explicação totalizante, impermeável a nuances, mediações institucionais e contradições históricas.

Na outra ponta, a Direita delirante — para usar um termo suave — preenche esse mesmo significante com algo bem menos delimitado: o globalismo.

Trata-se de um conceito curioso, porque raramente aparece definido de forma rigorosa. Ele pode significar ao mesmo tempo organismos multilaterais, elites financeiras, pautas identitárias, universidades, imprensa, vacinas, ONGs, a ONU, George Soros e, em dias mais criativos, até o clima. É o sistema como conspiração difusa, não como estrutura econômica ou política analisável.

O resultado é paradoxal: grupos que discordam em quase tudo compartilham a mesma gramática do ressentimento.

Como observou Carl Schmitt, a política moderna tende a se organizar pela distinção amigo/inimigo.

(Na nossa realidade baseada em conceitos cristãos, o bem e o mal.)

O “sistema”, nesse sentido, é o inimigo perfeito: abstrato o suficiente para nunca ser plenamente derrotado, mas concreto o bastante para justificar indignações permanentes.

Essa elasticidade explica por que o discurso anti-sistema sobrevive tão bem mesmo quando seus porta-vozes chegam ao poder.

Quando o “anti-sistema” governa, o sistema simplesmente muda de endereço. Já não está mais no Palácio, mas na burocracia, no Judiciário, na imprensa, nas universidades, no mercado internacional — ou em qualquer lugar conveniente para preservar a narrativa da pureza traída.

Como diria Hannah Arendt, a substituição da análise pela lógica do ressentimento é um dos primeiros sinais de empobrecimento do espaço público.

Há, evidentemente, razões reais para o mal-estar contemporâneo: desigualdade persistente, crises de representação, financeirização da vida, erosão da confiança institucional.

O problema começa quando o “anti-sistema” deixa de ser uma crítica e se torna uma identidade. Nesse estágio, ele já não quer reformar, compreender ou disputar o sistema — quer apenas habitá-lo como inimigo permanente, pois é dessa oposição que retira sentido.

No fim, o discurso anti-sistema revela menos sobre o sistema que pretende combater e mais sobre a dificuldade contemporânea de lidar com a complexidade.

Como advertia Isaiah Berlin, o desejo de explicações únicas para problemas plurais é intelectualmente sedutor — e politicamente perigoso.

O sistema, seja ele capitalismo, globalização ou modernidade tardia, não cabe inteiro em um slogan. Mas slogans, como sabemos, são muito mais fáceis de gritar do que conceitos são de pensar.

O “anti-sistema”: significante vazio da moda

No Brasil, declarar-se “anti-sistema” virou uma forma elegante — e socialmente aceita — de dispensar o esforço do pensamento.

É o novo “não sou de Direita nem de Esquerda”, só que com mais raiva, menos leitura e um sentimento difuso de superioridade moral.

Trata-se de uma posição política curiosa: ela se afirma pela negação de algo que raramente é definido, mas sempre culpado.

Do ponto de vista conceitual, o “anti-sistema” é um significante vazio, como já explicava Ernesto Laclau — embora seus usuários brasileiros provavelmente nunca tenham passado da orelha do livro, quando muito.

É uma palavra que não diz o que é, mas diz contra quem se está. E isso basta para mobilizar paixões.

Quando esse significante vazio é evocado, qualquer coisa pode ocupar esse vazio: os injustos impostos, a demoníaca ideologia de gênero, a Mão invisível do Mercado, os reptilianos, os globalistas, os comunistas...

Todo inimigos imaginários, mas que servem a um propósito bem definido: preencher a vaga de inimigo a ser combatido.

À Esquerda mais extremada, o sistema atende pelo nome respeitável de capitalismo. Não se trata aqui de negar a legitimidade da crítica ao capitalismo — ela é vasta, antiga e intelectualmente séria. O problema começa quando tudo passa a ser capitalismo: o preço do feijão, o algoritmo do Instagram, a derrota eleitoral, a falta de carisma do candidato e, claro, a impossibilidade de vencer eleições sem convencer o eleitor. O capitalismo deixa de ser um modo de produção historicamente determinado e vira uma entidade onipotente, responsável até pelo mau humor matinal.

À Direita brasileira — especialmente aquela que resolveu substituir Burke por vídeos de Telegram — o sistema se chama globalismo. Eis um conceito notável por sua elasticidade cognitiva. Globalismo pode ser o STF, a ONU, a imprensa, as universidades, o SUS, a vacina, o IBGE, o Papa, artistas da Lei Rouanet e, se apertar um pouco mais, o clima. É o sistema como conspiração permanente, nunca como estrutura verificável. Não se estuda: denuncia-se. Não se analisa: acusa-se.

O mais fascinante é que esses extremos se encontram no método. Ambos precisam de um inimigo abstrato para explicar seus fracassos concretos.

Como ensinou Karl Popper, teorias que explicam tudo acabam não explicando nada. No Brasil, elas apenas rendem curtidas.

O bolsonarismo é talvez o exemplo mais acabado dessa lógica. Chegou ao poder bradando contra “tudo isso que está aí” — o sistema, ora vejam — e, uma vez instalado no Planalto, passou quatro anos explicando que não governava porque o sistema não deixava.

Congresso? Sistema.

STF? Sistema.

Imprensa? Sistema.

Vacina? Sistema.

O curioso é que o sistema sempre estava no outro poder, nunca no espelho.

Mas a Esquerda brasileira não fica atrás quando transforma o “anti-sistema” numa identidade estética. Parte dela passou a tratar a democracia liberal não como um campo de disputa imperfeito, mas como um disfarce burguês irremediavelmente fraudulento. Resultado: despreza eleições quando perde, relativiza autoritarismos amigos e troca a crítica institucional por uma retórica moralizante que não convence nem o porteiro do prédio.

Hannah Arendt advertia que a política começa onde termina a tentação de explicações totais.

O discurso anti-sistema faz o caminho inverso: ele oferece uma resposta simples para problemas complexos e, assim, desobriga seus adeptos de pensar soluções reais. Afinal, se o mal é absoluto, qualquer meio vira aceitável — inclusive o flerte com o autoritarismo, desde que “do lado certo”.

No fim das contas, o “anti-sistema” brasileiro não é revolucionário nem subversivo. Ele é confortável. Funciona como um álibi retórico para não lidar com reformas difíceis, escolhas trágicas e responsabilidades institucionais. É a política como ressentimento organizado.

E aqui está a ironia final: quem vive denunciando o sistema raramente quer destruí-lo.

Quer apenas ocupá-lo — sem controles, sem crítica, sem limites.

Não é anti-sistema. É anti-complexidade, anti-democracia e, muitas vezes, anti-realidade.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Santa Catarina contra a Constituição: decadência intelectual como ideologia política

Santa Catarina resolveu inovar. Não na ciência, não na educação, não na inclusão — isso seria pedir demais.

Resolveu inovar no ramo da inconstitucionalidade criativa.

A Assembleia Legislativa e o (des)governo estadual decidiram, com a solenidade de quem ignora a Constituição, proibir cotas raciais nas universidades estaduais, como se estivessem revogando um decreto municipal sobre estacionamento rotativo.

O detalhe irrelevante — apenas irrelevante para quem legislou — é que o Supremo Tribunal Federal já decidiu, de forma unânime, que políticas de ação afirmativa são constitucionais.

Não “toleráveis”, não “aceitáveis”, mas constitucionalmente legítimas. Isso foi em 2012. Treze anos atrás. Mas quem conta tempo quando se tem convicção ideológica?

Vamos à contabilidade. Eis, pelo menos, cinco ilegalidades jurídicas evidentes cometidas com a elegância de um bode no salão da Assembleia:

1. Usurpação de competência constitucional
Estados não têm competência para legislar de modo a restringir direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição e interpretados pelo STF. Educação superior e direitos fundamentais não são brinquedos federativos. Santa Catarina agiu como se fosse um Supremo paralelo — sem toga, sem Constituição e sem pudor.

2. Violação direta ao princípio da igualdade material (art. 5º e art. 3º, CF)
A Constituição não protege uma igualdade de fachada, dessas que ignoram a história, os dados e a realidade social. O STF foi claro: tratar desiguais como iguais é produzir desigualdade. A lei catarinense faz exatamente isso — e ainda se apresenta como virtuosa.

3. Afronta à autonomia universitária (art. 207 da CF)
Universidades têm autonomia didático-científica e administrativa. Decidir critérios de acesso, desde que constitucionais, é atribuição da universidade, não do deputado estadual que resolveu fazer guerra cultural com o vestibular.

4. Desrespeito explícito à jurisprudência vinculante do STF
O julgamento das cotas não foi um “artigo de opinião”. Foi uma decisão plenária, sólida, reiterada e reafirmada ao longo dos anos. Ignorá-la não é ousadia — é insubordinação constitucional. No Estado de Direito, isso tem nome: ilegalidade.

5. Violação ao princípio da vedação ao retrocesso social
Quando o Estado reconhece políticas públicas voltadas à inclusão e depois as elimina sem base empírica ou constitucional, pratica retrocesso. Não é conservadorismo. É regressão institucional.

E o mais curioso é o discurso moralista que acompanha tudo isso. Fala-se em “meritocracia”, como se vestibular fosse olimpíada metafísica, onde o processo seletivo é trata docomo uma competição intelectual abstrata, desconectada da realidade material e social dos candidatos. Fala-se em “igualdade”, como se o Brasil tivesse começado ontem, sem escravidão, sem exclusão e sem estatísticas constrangedoras.

A lei catarinense não é neutra. Neutralidade aqui é ficção retórica. Ela escolhe um lado: o da desigualdade herdada, naturalizada e agora blindada por lei estadual.

O STF vai derrubar?

Muito provavelmente. É obrigação moral e legal derrubar.

A pergunta real é outra: por que legislar algo que já nasce morto?
Resposta simples: não é sobre Direito. É sobre sinalizar virtude ideológica a um público específico, mesmo que isso custe a Constituição.

O famoso apito de cachorro. Ou neste caso em questão, de gado.

Santa Catarina não está “defendendo a igualdade”. Está apenas demonstrando, mais uma vez, que convicção sem Constituição costuma dar nisso: uma lei que parece forte, mas juridicamente é oca.

E o Estado de Direito, felizmente, não se governa por achismo.


TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano



Resumo técnico (conteúdo gerado por I.A.)

Uma lei estadual de Santa Catarina que proíba cotas raciais nas universidades estaduais fere:

✔ Constituição Federal (arts. 1º, 3º, 5º, 206 e 207)
✔ Lei 12.711/2012
✔ Estatuto da Igualdade Racial
✔ Jurisprudência pacífica do STF (ADPF 186, RE 597.285, ADI 3330)

*ADPF = Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental

✔ Princípios da igualdade material, autonomia universitária e vedação ao retrocesso

👉 Alta probabilidade de declaração de inconstitucionalidade, em controle concentrado ou difuso.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

EUA, Groenlândia e o possível boicote a Copa do Mundo

Vamos falar dos Estados Unidos, porque se a Convenção de Genebra fosse aplicada, todos os presidentes dos Estados Unidos estariam presos.

O debate sobre um possível boicote à Copa do Mundo de 2026, sediada nos EUA, Canadá e México, ganhou força no início de 2026, impulsionado por tensões geopolíticas envolvendo o presidente Donald Trump, ameaças de taxas tarifárias contra a Europa e a questão da Groenlândia.

A discussão também ganhou força nas redes sociais com hashtags como #BoycottWorldCup2026, citando receios com políticas migratórias e segurança nos EUA.

No entanto, até o final de janeiro de 2026, um boicote efetivo por seleções nacionais ainda é considerado improvável, mas o debate reflete uma politização crescente do evento.

A Europa vai perder a Groenlândia para os Estados Unidos e, se não ficar quieta, vai perder tudo, porque a Europa acabou.

A Europa não é nada. A Europa é uma península da Ásia, mas que resolveram chamar de continente porque há 2 mil anos ela é um império que concentrou muito poder.

A Europa nunca foi um continente. Então, nós temos a Ásia, com duas penínsulas.

Uma, que é o Oriente Médio, na região sudoeste, e outra, que é a Europa, na região oeste. Só isso. Mais nada. O mundo é tripolar. Estados Unidos, Rússia e China.

E, neste tripolar, nós temos um bipolar muito forte para o lado do BRICS.

Se considerarmos o BRICS um mundo e os Estados Unidos outro, seremos bipolar. Os Estados Unidos podem ser derrubados economicamente. A resistência dos Estados Unidos é a bomba atômica que ele tem muito poderio militar.

Um Estado decidiu pela força arrancar de outro Estado o seu governante. E é aqui onde entra a filosofia, porque o que está em jogo não é apenas um homem, mas o próprio conceito de soberania, de justiça e de legitimidade no mundo moderno.

Bom, vamos voltar ao tempo. Ao tempo em que desde Thomas Hobbes aprendemos a imaginar o Estado como um leviatã, ou seja, uma criatura gigantesca, temível e criada para impedir o caos. Cada país no seu território guarda sua própria fera, guarda seu próprio leviatã, mas o que vemos agora é algo muito mais antigo. Um leviatã devorando o outro leviatã.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 24 de janeiro de 2026

Yes, Nós temos Bananas

Em 1923, os americanos Frank Silver e Irving Cohn lançaram “Yes! We Have No Bananas”, uma canção cômica sobre uma mercearia que não tinha bananas.

Em 1938, Braguinha e Alberto Ribeiro responderam à altura com a marcha “Yes, nós temos bananas”, ironizando a então crescente dominação cultural norte-americana sobre as Américas.

A mensagem era clara: o Brasil não era apenas uma “república das bananas”, mas um país com produção e identidade próprias.

Curiosamente, um ano depois, quando o petróleo foi descoberto em Lobato, na Bahia - ninguém compôs o inevitável “Yes, nós temos petróleo”. Era ali que começava a história que levaria à Petrobras, em 1953. Para bom entendedor, meia ironia basta.

Evitei comentar a recente ofensiva contra a Venezuela e a detenção de Maduro, para não cair na armadilha dos rótulos.

Que fique claro: não tenho simpatia por ditadores — nem por Maduro, nem por Trump – menos ainda por ditaduras. Acredito no voto, na alternância de poder e na democracia.

Tenho estudado com interesse afiado o que rola na política espanhola, onde os partidos independentistas (catalão, basco e galego) além de dar a sustentabilidade ao governo central, são os seus principais defensores.

Por sinal, assim como a política brasileira, na Espanha está tudo muito polarizado. Onde um espirro pode transformar-se num temporal e um arroto num furacão devastador.

Aliás, a Europa racista e xenófoba nunca deixou de existir. Apesar de desaparecerem há mais de 50 anos, os espíritos de Franco e de Salazar, continuam em forma de assombração.

O mundo parece cada vez mais preso a uma lógica de Fla-Flu: de um lado “a paz, a esperança e o vigor, unido e forte”, do outro “ele me mata, me maltrata”. Cada qual dono da sua verdade.

Em dezembro de 1993, na famosa foto do corpo crivado de balas do Pablo Escobar, havia um agente da DEA (Drug Enforcement Administration — Administração de Repressão às Drogas dos Estados Unidos).

Naquele ano, o consumo de cocaína nos EUA foi estimado em cerca de 254 toneladas. Em 1994, subiu para 323. Em 1995, 376.

Mataram o traficante, mas o tráfico prosperou. Em 2023, 30 anos depois existem cerca de 25 milhões de usuários de cocaína no mundo, um recorde. O discurso de “guerra às drogas” não sobrevive ao segundo parágrafo dos números.

Esse mesmo padrão vale para a política externa dos EUA. Ao longo do século XX, Washington criou, financiou e armou ditadores em nome da “segurança” ou do “combate ao comunismo” — e depois os descartou quando se tornaram incômodos.

Saddam Hussein, Noriega, Pinochet, o do Irã, Trujillo, Diem, Batista, Mobutu, Somoza… sem falar no próprio Bin Laden. A fórmula é simples: cria-se o tirano útil, usa-se, joga-se fora.

Com uma dívida que ronda os 38 trilhões de dólares, é ingênuo achar que o interesse maior dos EUA na Venezuela seja a democracia.

Vivemos esse Fla-Flu global sem VAR (de um lado “a paz, a esperança e o vigor, unido e forte”, do outro “ele me mata, me maltrata"), enquanto a vida cobra seu preço.

As perdas recentes – precoces - dos amigos Paulo Andel, Zé Neto e André Horta e os meus limites da minha frágil saúde (e a quantidade exacerbada de remédios com que sou obrigado a conviver) me fazem pensar em desistir.

Com relação ao Brasil, ainda há muitas razões para resistir. Porque, afinal, yes, nós temos bananas.

Temos também petróleo, Amazônia, terras raras, 12% da água doce superficial do planeta, cachaça, caipirinha, chopp da Brahma, Machado de Assis, samba, Pelourinho, açaí, acarajé, lei Maria da Penha, feijoada, Carlos Drumond de Andrade, praia de Ipanema, Parada Gay, Carnaval e futebol.

E quando falo de futebol, falo de Fluminense.

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A luta contra o autoritarismo é uma obrigação

A memória pública do século XX costuma simplificar a história da resistência ao fascismo e ao nazismo.

Com frequência, ela é apresentada como um confronto entre Esquerda e Direita, no qual apenas um campo político teria se colocado, de forma consistente, ao lado da democracia.

A documentação histórica, no entanto, revela um quadro mais complexo: a resistência ao totalitarismo foi plural, atravessou tradições ideológicas distintas e, em muitos casos, expôs contradições internas profundas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, diferentes grupos — comunistas, liberais, conservadores, democratas-cristãos e nacionalistas não fascistas — atuaram contra regimes autoritários por motivações diversas, mas convergentes em um ponto central: a recusa ao Estado totalitário e ao poder concentrado em líderes incontestáveis.

Livorno e o comunismo italiano na resistência

A cidade de Livorno, na Toscana, ocupa um lugar singular nessa história. Em 1921, foi ali que se fundou o Partido Comunista Italiano (PCI). Durante o regime de Mussolini, seus militantes sofreram repressão sistemática: prisões, exílio interno e clandestinidade. Após a ocupação alemã da Itália, em 1943, os comunistas de Livorno tornaram-se protagonistas da resistência local, integrando brigadas partisans, organizando sabotagens e sustentando redes de apoio civil em uma cidade duramente atingida por bombardeios.

Embora o PCI estivesse politicamente alinhado à União Soviética e reconhecesse em Stalin o líder do principal esforço militar contra o nazismo, a prática da resistência italiana foi marcada por forte autonomia local. A prioridade não foi a instauração imediata de um regime ideológico, mas a derrota do fascismo e a reconstrução de instituições nacionais.

No pós-guerra, essa experiência contribuiu para a consolidação do chamado “comunismo italiano”, que aceitou o pluralismo partidário, a disputa eleitoral e a convivência institucional. Ao longo das décadas seguintes, inclusive após a revelação dos crimes do stalinismo, o PCI e suas bases sociais — entre elas Livorno — passaram por processos de revisão crítica e distanciamento de modelos autoritários.

Essa trajetória histórica oferece um dado relevante para o debate contemporâneo: há experiências de Esquerda que, confrontadas com o autoritarismo, optaram por reformular práticas e romper com a defesa de regimes personalistas. Ignorar esse aprendizado enfraquece qualquer discurso democrático.

A resistência liberal e conservadora

A documentação histórica também mostra que a oposição ao fascismo não foi exclusividade da Esquerda.

Na Alemanha, grupos liberais e conservadores — como o Círculo de Kreisau e setores do alto comando militar envolvidos na Operação Valquíria — conspiraram contra Hitler, motivados pela defesa do Estado de direito e pela percepção de que o regime levava o país à ruína.

Na França, o gaullismo organizou uma resistência nacionalista e republicana.

Na Itália, liberais, democratas-cristãos e monarquistas romperam com Mussolini em 1943.

Na Polônia ocupada, o Armia Krajowa, de orientação conservadora e anticomunista, formou a maior organização de resistência da Europa.

No Reino Unido, o conservadorismo parlamentar, sob a liderança de Winston Churchill, tornou-se um dos pilares da luta contra o nazismo.

Esses exemplos indicam que setores da direita, quando vinculados a instituições, legalidade e limites ao poder, foram capazes de resistir ao autoritarismo — inclusive pagando alto custo político e pessoal.

Lições históricas e o debate atual

A análise comparada dessas experiências aponta para uma conclusão recorrente nos estudos históricos: o autoritarismo não se define apenas por ideologia, mas por práticas concretas de poder. Culto à personalidade, desprezo por instituições, repressão a opositores e manipulação do processo eleitoral foram características comuns tanto ao fascismo quanto a outros regimes ditatoriais do século XX.

Nesse sentido, a história de Livorno sugere que a Esquerda democrática fortalece sua legitimidade quando é capaz de criticar e rejeitar ditaduras, independentemente de alinhamentos geopolíticos. Da mesma forma, a tradição liberal e conservadora europeia demonstra que a Direita preserva sua herança quando se recusa a apoiar lideranças golpistas, mesmo quando estas se apresentam como representantes de valores nacionais ou morais.

O registro histórico do século XX é consistente em um ponto: regimes personalistas e autoritários corroem tanto projetos revolucionários quanto tradições conservadoras. A resistência ao fascismo não foi um patrimônio exclusivo de um campo político, mas o resultado de escolhas feitas — ou recusadas — diante do poder absoluto.

A história não oferece receitas prontas, mas fornece critérios. Entre eles, talvez o mais claro seja este: quando a democracia é relativizada em nome da conveniência ideológica, o resultado tende a ser menos política e mais ruína institucional.

Por fim, não podemos deixar de citar, a vergonha que é para a Direita brasileira apoiar um  golpista fascistóide como Jair Bolsonaro.

Da mesma maneira que a Esquerda brasileira, não pode se dar ao luxo de apoiar ditadores como Nicolás Maduro.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Pastor preso é um dos maiores doadores de campanha... advinha de quem?

A Polícia Federal prende.

O inquérito avança. Os fatos se acumulam. O dinheiro deixa rastros.

O personagem central é investidor, pastor, empresário e — vejam só — um dos maiores doadores das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

E então surge a pergunta que realmente importa para parte da imprensa e da bolha digital: “Mas o que Alexandre de Moraes tem a ver com isso?”

Pois é. Nada. Justamente por isso, insistem.

Temos aqui um caso típico de manual: relação empresarial nebulosa, conexões familiares com banqueiro de grande porte, operações financeiras sob suspeita e, por coincidência apenas estatística, proximidade política com o bolsonarismo.

A investigação é da PF. O inquérito corre nos trilhos legais. Não há canetada solitária, não há decisões monocráticas mirabolantes, não há capa preta pairando sobre os autos como entidade metafísica.

Mas isso não impede que parte da imprensa (aquela sempre pronta a farejar “excessos” onde só há procedimento) force Alexandre de Moraes para dentro da cena, como se ele fosse uma espécie de personagem obrigatório de qualquer narrativa criminal que envolva aliados do bolsonarismo.

É quase tocante.

Quando o investigado é um “cidadão de bem”, empresário religioso, financiador de campanhas da direita, a lógica muda.

Já não se pergunta o que ele fez, mas quem ousou investigá-lo.

E aí Alexandre de Moraes deixa de ser ministro do Supremo para virar vilão de novela, onipresente, onisciente e, aparentemente, responsável até pela lei da gravidade.

Curioso: quando a PF investigava governos petistas, não havia essa súbita preocupação com o “Estado de Direito ferido”, com o “ativismo institucional”, com o “excesso de poder”.

A lei era dura, mas justa. Agora, quando os alvos orbitam o campo político oposto (aquele que se autodeclara guardião da moral, da família e de Deus) a lei vira suspeita, e o juiz, automaticamente, culpado.

O raciocínio é simples, embora intelectualmente indigente: se alguém ligado a Bolsonaro é investigado, logo Alexandre de Moraes está abusando de poder.

Se a PF age, é porque foi “mandada”. Se o Judiciário funciona, é porque conspira.

Não é jornalismo. É militância disfarçada de perplexidade.

E o mais revelador: ninguém consegue apontar qual ato ilegal de Moraes estaria em jogo.

Não há decisão específica. Não há despacho escandaloso. Não há nulidade processual.

Há apenas o incômodo profundo de ver que o sistema institucional brasileiro (com todos os seus defeitos) ainda funciona o suficiente para alcançar gente poderosa, rica, influente e politicamente alinhada ao bolsonarismo.

Isso, para alguns, é imperdoável.

No fundo, o que se quer não é justiça imparcial, mas imunidade seletiva. Quer-se um país onde investigar adversários seja virtude republicana, mas investigar aliados seja tirania togada. Onde a PF seja técnica quando convém e “instrumentalizada” quando não convém.

Alexandre de Moraes, nesse enredo, cumpre apenas o papel que lhe foi atribuído por quem não aceita perder: o de bode expiatório permanente.

É mais fácil atacar o árbitro do que admitir que o jogo foi jogado, e que alguém com boas relações políticas e religiosas pode, sim, estar do lado errado da lei.

A insistência em arrastá-lo para esse caso diz menos sobre Moraes e muito mais sobre o desespero de quem já não consegue sustentar a própria narrativa sem inventar um vilão institucional.

E isso, convenhamos, não é ironia. É só patético mesmo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

América Latina no Alvo do Império em Declínio

As únicas diferenças desta última invasão dos EUA sobre a Venezuela em relação a todas as ações imperialistas similares ao redor do mundo é que agora há pressa e não há disfarces.

Trump não pediu autorização do congresso e fala abertamente que seu objetivo é tomar o petróleo de nosso vizinho.

Esse desprezo do executivo estadunidense aos ritos pseudo democráticos e aos discursos falaciosos oficiais me parece, contraintuitivamente, sintoma de decadência estrutural do império.

Ainda que a ação mostre musculatura militar, a pressa por recursos e o descaso com as posições até de aliados próximos mostra também desespero.

Processos históricos podem ser longos, muito longos. E vivemos indiscutivelmente o ocaso do império estadunidense. Porém não nos enganemos: eles vão cair atirando e somos alvos preferenciais.

Um bom primeiro ato de resistência é expor e denunciar todos os entreguistas que agora pedem a invasão de nosso próprio país; esse bando é tão inimigo nosso quanto Trump.


TEXTO DE:

Alexandre Périgo

domingo, 4 de janeiro de 2026

Prisão de Maduro. A derrubada de tiranos não pode ser pretexto para legitimar pilhagens


Não há absolutamente nada a comemorar na invasão da Venezuela por tropas americanas e na consequente captura de Nicolás Maduro.

Trata-se de uma ação flagrantemente ilegal, em afronta direta ao princípio da não intervenção entre Estados soberanos, consagrado na Carta das Nações Unidas.

Não se confunda esta crítica com qualquer tentativa, ainda que remota, de absolver o ditador venezuelano.

Maduro é um autocrata que se perpetuou no poder por meio de fraudes eleitorais reiteradas, repressão política e erosão sistemática das instituições democráticas. A natureza de seu regime não está em debate.

O ponto central é outro — e mais grave. Donald Trump violou conscientemente o regramento internacional não para restaurar a democracia venezuelana, mas para atender a interesses econômicos estratégicos, notadamente o controle sobre o petróleo do país.

Não há idealismo nem altruísmo nesta intervenção: há oportunismo geopolítico.

Neste embate, não existem mocinhos.

Cometeu-se um crime internacional para, supostamente, interromper outro crime — o da permanência ilegítima de Maduro no poder. A lógica é perversa e perigosa: legitimar o uso da força em nome de uma pretensa moralidade superior.

As declarações do vice-presidente americano, J.D. Vance, segundo as quais seria necessário “retomar” um petróleo que teria sido roubado dos Estados Unidos, não resistem a uma análise histórica minimamente honesta. Trata-se de um biombo retórico, construído para encobrir o verdadeiro propósito da ação militar.

Os fatos são inequívocos. Em 1976 — há exatos cinquenta anos — o então presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez nacionalizou a indústria do petróleo.

Fê-lo dentro da legalidade, com respaldo institucional e, sobretudo, mediante o pagamento de compensações que ultrapassaram US$ 1 bilhão às empresas afetadas, entre elas Exxon, Mobil, Gulf Oil e Texaco.

Não houve confisco arbitrário, tampouco expropriação autocrática. Um governo democraticamente eleito decidiu nacionalizar um setor estratégico de sua economia, negociando compensações amplamente discutidas e aceitas à época.

Reescrever essa história para justificar uma intervenção militar é não apenas intelectualmente desonesto, mas politicamente perigoso.

Ao atropelar o direito internacional sob o pretexto de corrigir uma injustiça histórica inexistente, Washington abre um precedente perigoso.

Se a violação da soberania alheia passa a ser aceitável sempre que houver recursos estratégicos em jogo, o sistema internacional retorna à lei do mais forte — exatamente o oposto da ordem que se pretendeu construir após a Segunda Guerra Mundial.

A derrubada de tiranos não pode ser pretexto para legitimar pilhagens. Quando a força substitui o direito, todos perdem — inclusive aqueles que acreditam estar do lado vencedor.

Ainda mais frágil é a justificativa de que Maduro liderava uma organização criminosa transnacional voltada ao tráfico de drogas. Essa tese tampouco resiste a uma análise consistente.

A Venezuela é, no máximo, um corredor de passagem para a entrada de cocaína nos Estados Unidos. Mais de 95% da produção provém da Colômbia e do Peru. Ou seja, se esse fosse o propósito, o alvo não corresponderia aos fatos.

A propósito da Colômbia, a entrevista de Donald Trump foi assustadora para o presidente Gustavo Petro.

O mandatário dos Estados Unidos o ameaçou ostensivamente, dando a entender que pode ser o próximo alvo.

Há diferenças gigantes entre os dois casos. De fato, a Colômbia é o maior produtor de cocaína das Américas, mas Petro não é um ditador: foi eleito democraticamente. Portanto, ameaçá-lo é uma demonstração pública de absoluto desprezo pelas instituições democráticas. Inaceitável.

Os arroubos retóricos de Trump chocaram também pela ausência de qualquer referência à retomada da ordem democrática na Venezuela.

Nem mesmo para atenuar o objetivo óbvio de espoliar as riquezas minerais do país invadido, Trump aludiu ao propósito de contribuir para o restabelecimento da normalidade institucional venezuelana, por meio de eleições livres e transparentes.

É necessário reconhecer que foi, ao menos, sincero: falou em petróleo de modo desabrido, sem pudores. Não escondeu o propósito real da operação.

Insolentes, Trump e seus auxiliares diretos deixaram no ar uma ameaça explícita a todos os países latino-americanos que eventualmente discordem das posições do atual governo estadunidense. “Ninguém nunca mais questionará o poderio americano no nosso hemisfério”, disse, citando a Doutrina Monroe, que preconiza a dominação da América Latina por Washington como poder hegemônico da região.

A tese revive um entulho ideológico do imperialismo clássico que o discurso diplomático parecia ter arquivado e restabelece a prática de violações em nome do controle absoluto da área de influência política da nação líder — a mesma justificativa invocada por Vladimir Putin para invadir a Ucrânia.

O que se vê é a normalização da força em desfavor do triunfo da justiça. Neste caso, foi contra Nicolas Maduro – um ditador.  Mas quem será o próximo alvo de Donald Trump


TEXTO DE:

Ricardo Bruno 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Venezuela Free


 

Cada vez que os EUA ‘salvam’ um povo, o deixam transformado em manicômio ou cemitério
(Eduardo Galeano)

Com quantas fake news se faz uma guerra?

Não podemos esquecer a relação perversa entre o governo Trump e os bilionários das Big Techs, nem que as redes sociais são capazes de construir discursos que corroem democracias e justificam ataques.

Fagulhas de mentira alimentadas por algoritmos invisíveis, se alastram e queimam a confiança pública.

Há mais do que dúzias de países mundo afora que vive sob regime ditatorial, que não respeitam legislações e submetem seus próprios povos a martírios intangíveis.

Eis que os Estados Unidos só se preocupam com os que são abundantes em hidrocarbonetos, combustíveis ou não. Coincidência ou não, nações que não possuem material bélico capaz de persuasão, como bombas atômicas.

Como pode uma tirania ser derrotada por outra tirania e as pessoas acharem isso bom?

Não há esperança em um mundo onde um país mais rico e mais forte segue conseguindo tudo o que quer na marra enquanto outros apenas fingem demência, tal qual o estado brasileiro, que há décadas se prostra em relação às ameaças vizinhas.

Somos corresponsáveis por tudo que ocorre em nosso quintal.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Banco Master e o Teateo da Mídia Lavajatista

Não sei se vocês estão perdidos, mas é preciso lembrar que o escândalo do Banco Master diz respeito a bilhões de reais de dinheiro público alocados em operações financeiras temerárias, envolvendo bancos públicos, fundos de aposentadoria e governos estaduais. Isso é o essencial.

Todo o resto é distração. E distração, aqui, é estratégia preferencial das forças antidemocráticas. 

O caso é especialmente grave por envolver governadores e lideranças políticas ligadas ao bozismo institucional - entre eles, os governadores do Rio de Janeiro e de Brasília - que autorizaram investimentos massivos em títulos de alto risco, comprometendo recursos que pertencem à população - a nós, à você.

Quando o castelo começou a ruir, tentou-se socializar o prejuízo: determinado senador bolsonarista quase conseguiu emplacar a ampliação do Fundo Garantidor de Crédito para cobrir rombos privados com dinheiro coletivo. Foi quase.

Mas o debate público foi rapidamente deslocado. E muitos embarcaram na onda…

De repente, o “escândalo” deixou de ser o uso criminoso do Estado pelos bozistas e passou a ser um suposto contrato de advocacia envolvendo a esposa de um ministro do STF - aquele que foi relator do processo que condenou, justamente, o chefe da organização criminosa.

Um contrato discutível? Sim, é possível. Eticamente questionável? Pode ser. Ilegal? Até agora, não.

E, sobretudo, irrelevante diante da dimensão do dano financeiro em curso.

Essa inversão não é inocente. O escândalo, hoje, é uma arma política que as forças antidemocráticas manejam com destreza ao menos desde o lavajatismo. E o fato de o lavajatismo ter saído quase ileso dos crimes que cometeu cobra seu preço na sua repetição sempre que a situação dos canalhas de sempre aperta.

A distração na forma de escândalo de estilo lavajatista, plantada pela grande mídia, funciona como instrumento de ocultação. Em vez de revelar a verdade, fragmenta-a, moraliza-a e personaliza-a. Troca-se o crime estrutural pela indignação seletiva. Enquanto se discute o contrato e o parentesco da advogada com o juiz, os responsáveis pelo desaparecimento de bilhões do erário convenientemente desaparecem do noticiário.

A cereja do bolo desse lavajatismo redivivo é o chamado para uma CPI - proposta, não por acaso, por setores do congresso que são inimigos do povo diretamente implicados no caso - e apoiada por figuras que se dizem de esquerda, mas que fizeram parte do lavajatismo.

O mais curioso é o crime investigando a si mesmo: escolhendo o roteiro, inventando fatos e invertendo acusações - como no caso dos desvios no INSS, crime perpetrado em conluio com a mesmíssima organização criminosa do presidiário.

Essa CPI ou CPMI seguirá claramente a mesma lógica da CPMI do INSS e cumprirá, sem muita dúvida, o objetivo central da estratégia: reorganizar o espetáculo, controlar o foco da opinião pública e produzir equivalências falsas. E tudo isso em ano eleitoral.

Além disso, last but not least, figuras como o Governador de São Paulo surgem como atores indiretos no caso Master.

Ele recebeu doações de campanha de empresários ligados ao conglomerado do Banco, criando uma relação política e financeira que merece atenção. Até o momento, não há registro de investigação formal contra ele, mas o interesse da mídia antidemocrática em transformar o debate pode estar justamente em embaralhar o enredo e desfocar a verdade, desviando o foco do público das relações entre Tarcísio e o Master.

Tinha era que ter uma CPI sobre o lavajatismo da grande mídia…

Na montagem abaixo, identifiquem os personagens envolvidos… A grande imprensa não o fará por você.

TEXTO DE:
Sérgio Alarcon

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

De Jesus às Havaianas, só não pode matar o Mensageiro

Antes de tudo, um fato: em tempos de mimimi - y “del no me toques”, convém lembrar que meu Pai era de Direita.

Filiou-se nos anos 80 à Ação Popular (hoje Partido Popular) e foi Concejal del Servicio Público y Fomento em As Neves, cidade de Galícia, na Espanha — algo como vereador-secretário.

Divergíamos sempre. Nunca houve grito, nem cara atravessada. Hoje, treze anos após sua morte, está cada vez mais difícil engolir certas coisas — e mais difícil ainda ficar calado.

Em 1973, a Pepsi lançou um jingle nas rádios que virou polêmica: QUEM TEM AMOR PRA DAR (composição de , Rodrix & Guarabira): 

"Hoje existe tanta gente que quer nos modificar, não quer ver nosso cabelo assanhado com jeito.
Nem quer ver a nossa calça desbotada, o que é que há? Se o amigo está nessa ouça bem, não tá com nada!
Só tem amor quem tem amor pra dar, quem tudo quer do mundo sozinho acabará.
Só tem amor quem tem amor pra dar, só o sabor de Pepsi lhe mostra o que é amar"...


Houve quem enxergasse ali uma ameaça ao regime militar. Não havia. Mas a paranoia falou mais alto. Até que saiu o comercial na televisão. Não passava de uma mensagem aos jovens, na onda do movimento hippie. Os hippies pregavam o amor livre, o respeito à natureza, ao pacifismo e a uma vida mais simples – MAKE LOVE, NOT MONEY.

Pouco depois, veio o clássico da Bamerindus: “o tempo passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus continua numa boa” — e passou mesmo. Só a ignorância cricri continua, permaneceu intacta.

Em 2025, repetimos o filme. Um surto coletivo se volta contra a campanha de fim de ano das Havaianas, estrelada pela premiadíssima Fernanda Torres. Um ataque neurótico, beirando o delírio.

A pergunta é simples: se a protagonista fosse a Regina Duarte, a Cássia Kiss, a Antônia Fontenelle ou a Luiza Tomé, com o mesmo texto, haveria a mesma gritaria? Ou o problema é o CPF de quem calça a sandália?

Outra: os mesmos que gritam contra a propaganda recusariam uma transfusão de sangue “vermelho” ou preferem uma overdose de anilina?

Cancelariam Milton Nascimento por causa de Canção da América – e o amigo guardado no lado esquerdo do peito?

Ou César Menotti & Fabiano por Do Lado Esquerdo?

No fundo, o que mudou nesses 52 anos entre a Pepsi e as Havaianas é pouco: a burrice virou hereditária.

E que me perdoem alguns amigos da esquerda: o povo tem direito de comprar o que quiser. Não dá mais para culpar o capitalismo por tudo. Ou vamos ressuscitar Georgi Dimitrov e o Congresso de 1935?

Já que falamos de extremismo, é urgente dar um basta ao deputado Paulo Bilynskyj — um misógino que agora resolveu posar de teórico separatista. Ao chamar o Maranhão de “bosta”, revela ignorância crassa sobre a cultura e o potencial econômico do estado. E, ao atacar a Bahia, transforma ACM em Fidel Castro, a velha ARENA em Sierra Maestra e a UDN em guerrilha revolucionária. Patético.

E não esqueçamos do nebuloso caso do Banco Master, que traz consigo a verborragia contaminada da Malu Gaspar. Como cidadão brasileiro desejo que se apure até o último centavo. Como torcedor do Fluminense me preocupa. Há boatos, supostamente com o BTG no meio, e silêncio demais.

Por fim, o Natal.

O Papa Leão XIV disse algo óbvio: negar ajuda aos pobres é negar Deus.

Já o Cardeal Dom Odilo mandou suspender as transmissões do Padre Júlio Lancellotti. Enquanto isso, quem aparece na TV são  os Padres das fanfarras, Marcelo Rossi e Fábio Melo — cujas práticas cristãs não chegam a 5% da obra social de Júlio.

Que igreja é essa? Dois pesos, duas medidas.

Um mês sem Paulo Andel me deixou mais ácido, mais atento. Especialmente em dezembro, mês do nascimento de Jesus — que, convenhamos, usava sandálias, as Havaianas da época. 

Não esqueçam:

Jesus se escreve com J.

J de Padre Júlio Lancellotti.

FELIZ 2026!!!


TEXTO DE:
Antonio Gonzalez