segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Eulogy, o episódio perfeito de Black Mirror

O episódio Eulogy, da sétima temporada de Black Mirror, é menos sobre tecnologia e mais sobre memória — não como registro fiel do passado, mas como construção emocional. A inovação tecnológica apresentada não cria o conflito; ela apenas força o protagonista a encarar aquilo que ele passou anos evitando: a sua própria história.

Desde o início, somos apresentados a um homem que vive cercado de lacunas. As fotos da antiga namorada estão danificadas, o rosto dela nunca aparece por inteiro, e suas lembranças surgem fragmentadas, desfocadas, sempre interrompidas antes de chegar ao essencial. Nada disso é acidental. Eulogy constrói uma metáfora poderosa: quando escolhemos uma narrativa defensiva, a memória também se defende.

QUANDO NÓS SOMOS OS VILÕES DAS OUTRAS PESSOAS

O protagonista acredita, durante boa parte de sua vida, que foi o lado ferido da relação. A história que ele conta a si mesmo é simples, confortável e incompleta: ela falhou, ela foi injusta, ela destruiu algo que ele tentou preservar. Mas Eulogy desmonta essa lógica com cuidado e crueldade.

À medida que as lembranças avançam, fica claro que a relação não terminou por um único ato, mas por uma sucessão de pequenas violências emocionais, silêncios, orgulhos e incapacidades mútuas de escuta. O episódio aponta para uma verdade incômoda: é perfeitamente possível ser o vilão da história de alguém enquanto se enxerga como protagonista injustiçado da própria narrativa.

Aqui, Black Mirror toca em algo profundamente humano — a facilidade com que editamos o passado para preservar nossa autoimagem.

MAIS DIFÍCIL DO QUE PERDOAR O OUTRO É PERDOAR ISSO MESMO

O coração emocional de Eulogy não está no perdão direcionado à mulher que morreu, mas no perdão que o protagonista precisa conceder a si mesmo. Ele não sofre apenas pela perda do amor; sofre porque percebe, tarde demais, que também foi responsável pelo fracasso da relação.

O episódio sugere que o autoengano cobra juros altos. Enquanto ele sustenta a versão em que é apenas vítima, suas memórias permanecem quebradas — literalmente. As fotos seguem danificadas, o rosto dela inacessível. Só quando ele aceita sua parcela de culpa, reconhece suas falhas e abandona a necessidade de se inocentar, algo muda.

O perdão, aqui, não é absolvição. É reconhecimento. É a capacidade de dizer: eu amei, mas também feri.

O ROSTO POR TRÁS DAS FOTOS

Um dos símbolos mais delicados de Eulogy é o fato de que o protagonista só consegue ver nitidamente o rosto da namorada quando aceita a história inteira — não apenas a parte que o favorece. Enquanto ele insiste em uma narrativa mutilada, as imagens permanecem mutiladas.

A memória visual funciona como espelho da memória moral. Não é a tecnologia que falha; é a consciência que resiste. Quando ele finalmente se permite perdoar — a ela, por suas falhas, e a si mesmo, por suas omissões e durezas — o rosto surge. Inteiro. Humano. Real.

Nesse gesto silencioso, o episódio afirma algo profundo: só conseguimos lembrar plenamente de alguém quando deixamos de usar a memória como escudo.

O VELÓRIO DE MEMÓRIAS FALSAS

A cena final do velório condensa toda a crítica do episódio. Todos os presentes compartilham lembranças da falecida mediadas por um dispositivo tecnológico na têmpora. São memórias editadas, organizadas, emocionalmente seguras. A dor foi suavizada. O passado, padronizado.

O protagonista é o único ali que carrega uma memória real — contraditória, dolorosa, imperfeita. Ele lembra do amor, mas também das falhas, das brigas, dos silêncios. E isso o isola. Eulogy sugere que lembrar de verdade é solitário, porque a memória autêntica não serve ao conforto social; ela exige maturidade emocional. Ele está na porta, enquanto os outros estão dentro da igreja. O único amor real que ela teve estava fora de sua vida, mas ainda permanecia nas memórias.

Enquanto os outros consomem versões fabricadas da pessoa que morreu, ele é o único que conheceu alguém de fato.

O AMOR NÃO MORRE, MESMO SOTERRADO

Talvez o aspecto mais devastador de Eulogy seja sua recusa em tratar o amor como algo que desaparece com o tempo. O episódio afirma o contrário: o amor verdadeiro pode permanecer intacto mesmo soterrado sob mágoa, orgulho e anos de silêncio.

Não há reconciliação possível, não há redenção tardia. O que existe é uma elegia — no sentido mais honesto da palavra. Não uma celebração idealizada, mas o lamento consciente por um amor que existiu e que poderia ter sido diferente se ambos tivessem sido capazes de se enxergar com mais clareza.

A FILHA RECEBE O PASSADO QUE LHE FOI NEGADO

Entre tantas memórias fabricadas, higienizadas e compartilháveis, Eulogy reserva seu gesto mais silenciosamente esperançoso à filha da falecida. Enquanto os demais personagens acessam lembranças mediadas por dispositivos — versões seguras, editadas e emocionalmente neutras — é justamente ela quem consegue algo raro: uma memória verdadeira, não programada, não consensual, vinda diretamente do protagonista.

Esse encontro é decisivo porque rompe o circuito fechado da memória artificial. A filha não conhece a mãe apenas pela imagem socialmente aceitável construída no velório, mas por uma lembrança atravessada por contradição, dor e amor. Ao ouvir o protagonista, ela entra em contato com um lado da mãe que nunca lhe foi apresentado: imperfeito, apaixonado, falho, profundamente humano.

Aqui, Black Mirror sugere algo poderoso: a memória verdadeira não é necessariamente a mais confortável, mas é a única capaz de ampliar o outro. A filha não recebe uma versão idealizada da mãe — recebe uma mulher que amou, errou, foi amada e também feriu. E isso não diminui a mãe; ao contrário, a torna mais real.

Há algo quase pedagógico nesse gesto. Enquanto a tecnologia promete preservar o passado, é a transmissão humana — frágil, subjetiva, emocional — que de fato cria vínculo e compreensão. A filha passa a conhecer a mãe não como mito ou arquivo, mas como alguém que existiu em relação a outro ser humano.

Nesse sentido, Eulogy aponta para uma inversão sutil: o protagonista, que parecia condenado a carregar sozinho o peso da memória real, torna-se o único capaz de oferecer à filha algo que nenhuma tecnologia poderia fornecer — uma lembrança que não fecha a história, mas a abre. Não uma resposta definitiva, mas uma complexidade nova.

Ao permitir que a filha conheça esse lado oculto da mãe, o episódio afirma que a memória autêntica não serve apenas para o luto; ela serve para o encontro. Mesmo depois da morte, mesmo depois do tempo, mesmo depois do erro.

E talvez essa seja a nota mais delicada da elegia que Black Mirror compõe aqui:
a verdade não consola como a mentira, mas conecta como nada mais é capaz de fazer.

CONCLUSÃO

Eulogy é um dos episódios mais humanos de Black Mirror porque desloca o horror da tecnologia para dentro de nós. Ele nos confronta com uma pergunta incômoda: quantas memórias mantemos danificadas apenas para não encarar quem fomos?

Ao final, quando o protagonista finalmente vê o rosto da mulher que amou, entendemos que a verdadeira falha nunca foi técnica. Foi moral. E que, às vezes, só conseguimos lembrar plenamente de alguém quando aceitamos que amar também implica falhar — e assumir isso.

Por fim, o encontro com a filha, que não é dele, mas é o resultado da relação imperfeita que  teve com o grade amor de sua vida, nos dá uma resposta bem clara: ele teria perdoado, teria sido um pai para ela.

E além do fim do episódio, nosso protagonista aceita a filha que não teve, da mesma maneira que ela ganha o pai que lhe foi negado pelo destino.

Um final perfeito.

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