O debate sobre educação no Brasil anda prisioneiro de uma péssima caricatura.
O Bolsonarismo (essa praga que engoliu nossa Direita Democrática), insiste na tese de que as escolas foram tomadas por militantes marxistas empenhados em transformar adolescentes em revolucionários de recreio.
Do outro lado, setores da Esquerda respondem com discursos sobre a centralidade da educação para o desenvolvimento nacional. Enquanto isso, o sistema educacional segue funcionando quase como sempre funcionou.
E a Direita?
Essa ainda discute se conseguirá ou não sobreviver sem precisar se esconder debaixo do Bolsonarismo e seus bilhões de votos, já que a Direita mesmo possui pouquíssimos.
No meio dessa disputa retórica estão os alunos. E os números.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que o Brasil ainda tem cerca de 9 milhões de analfabetos entre pessoas com mais de 15 anos. Trata-se de um contingente equivalente à população inteira de vários países europeus.
A distribuição desse problema também revela muito sobre o país.
Entre brasileiros com 60 anos ou mais, a taxa de analfabetismo ultrapassa 14%. E mais da metade dos analfabetos vive no Nordeste — um retrato bastante fiel das desigualdades regionais que atravessam a história brasileira.
O povo nordestino não é analfabeto, mas é empurrado para condições de analfabesitmo, por causa das desigualdades, característica nacional.
Essa condição não existe por causa de "professores comunistas" ou por causa de um "projeto conspiratório de dominação do Lula". Essa alta taxa de analfabetismo está ligada também a evasão escolar incentivada pelas desigualdades sócio-econômicas, além de muitos outros fatores.
Os dados da alfabetização infantil também não são exatamente animadores. Avaliações recentes mostram que apenas cerca de 59% das crianças do segundo ano do ensino fundamental estão plenamente alfabetizadas.
Em termos práticos, quase metade chega ao terceiro ano sem dominar leitura e escrita de maneira satisfatória.
Agora observe o paradoxo.
Um país em que milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades básicas de alfabetização mantém o debate público concentrado em guerras culturais, muitas vezes importadas das redes sociais e adaptadas ao contexto brasileiro com uma boa dose de exagero.
De um lado, grita-se “doutrinação”.
Do outro, responde-se com denúncias genéricas de “neoliberalismo”.
O problema real continua praticamente intocado.
Outro ponto raramente discutido com a serenidade necessária é o crescimento da influência de fundações privadas e organizações ligadas ao mercado financeiro na formulação de políticas educacionais.
Essas instituições participam da construção de currículos, avaliações e programas de gestão. O tema merece debate sério, não slogans.
A pergunta é simples: qual deve ser o limite da influência de atores privados na definição dos rumos da educação pública?
Também aqui as posições políticas costumam ser mais retóricas do que práticas.
Governos de Direita frequentemente falam em disciplina, eficiência e combate à ideologia, mas raramente apresentam um modelo pedagógico capaz de substituir o sistema existente.
Esse discurso se limitou a alimentar o bolsonarismo, mas na prática não trouxe nenbuma solução para a educação.
Um exemplo dessa desgraça toda, são as escolas "cívico-militares", com "professores policiais" escrevendo descançar e continêcia, no quadro, enquanto ensinam flexões de braço como currículo educacional.
Governos de Esquerda ampliaram o acesso à educação, criaram universidades e programas de inclusão (avanços reais, sem dúvida), mas tampouco promoveram uma transformação estrutural do modelo educacional brasileiro.
O resultado é um curioso consenso silencioso: todos afirmam que educação é prioridade nacional, desde que isso não implique mudanças profundas nas engrenagens do sistema.
Assim o país segue convivendo com três fenômenos simultâneos:
- um debate ideológico cada vez mais barulhento,
- um modelo educacional envelhecido,
- milhões de brasileiros tentando aprender o básico em condições desiguais.
Talvez o gesto mais revolucionário no Brasil contemporâneo fosse justamente o mais simples: discutir educação com menos slogans e mais realidade.
Talvez o debate público sobre educação devesse dar mais ouvidos aos envolvidos no processo, como professores, educadores, pais e alunos, do que políticos semi-analfabetos profissionais em retórica barata.
TEXTO DE:
Tarciso Tertuliano

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